A prosódia do manhês e lalingua[1]
Desde os trabalhos pioneiros de Anne Fernald (1982), as pesquisas psicolinguísticas evidenciaram a existência de uma prosódia específica na voz dirigida ao bebê: o motherese, ou manhês. Essa prosódia, universal, caracteriza-se por contornos melódicos acentuados, variações amplas de energia, escansões marcadas e alternâncias de picos prosódicos que Fernald descreveu como expressão conjunta de surpresa e prazer. O bebê responde a ela desde o primeiro dia de vida, antes mesmo de qualquer experiência de satisfação alimentar, por meio de um apetite oral pulsional mensurável: sucções intensas e não nutritivas, sinal de um interesse que nada tem a ver com a necessidade.
Esse fenômeno, descrito pelos psicolinguistas sem que se medisse seu alcance metapsicológico, encontra nos ensinamentos de Lacan um desdobramento decisivo. O que Fernald evidencia não é um fenômeno linguístico no sentido da linguagem— sistema, código, articulação significante —, mas um fenômeno que se insere no que Lacan denomina lalingua. Em O saber do psicanalista (1972), Lacan insiste: “Lalingua não tem nada a ver com o dicionário”. E em A Terceira (1974), ele afirma que lalingua é o lugar onde “o gozo se deposita”. Lalingua é a dimensão gozante da língua, sua materialidade sonora, seus equívocos, seus ritmos, seus semas, tudo o que atinge o corpo. O sentido é secundário.
Estamos longe do Lacan mais conhecido, aquele que privilegia o simbólico e afirma que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Essa leitura, difundida sobretudo por analistas que leram Lacan sem tê-lo praticado, levou muitos a buscar significantes que permitiriam “decifrar” o desejo inconsciente. Mas houve uma virada na obra de Lacan no início dos anos 1970: ele passa a enfocar o real do gozo na lalingua e chega a afirmar que é desse lugar que o analista interpreta.
Confesso que levei mais de cinquenta anos para compreender plenamente essa virada. Iniciei minha análise com Lacan em janeiro de 1973, depois de tê-lo encontrado quatro vezes em meados de 1972, quando cheguei à França. Sempre afirmei que minha maneira de trabalhar com bebês incapazes de se comunicar com suas mães — mães aflitas por não conseguirem entrar em contato com eles — tinha tudo a ver com minha experiência analítica com Lacan. Mas eu não encontrava na obra dele onde sustentar essa experiência. Aos poucos, fui percebendo que podia me apoiar no que ele dizia do amor de transferência em seu seminário homônimo. Em seguida, compreendi que o conceito de semblante podia figurar o lugar que eu ocupava no amor de transferência junto a essa mãe tão sofrida pelo problema de seu bebê.
Há anos escrevo sobre o fato de que apenas com a prosódia do manhês podemos alcançar esse bebê. Como veremos, essa prosódia é a própria construção da lalingua. Passar de um conceito da linguística — a prosódia — para um conceito da metapsicologia lacaniana — a lalingua — é fundamental, pois permite articular a questão do real do gozo que a lalingua veicula com a questão da pulsão e do gozo do Outro barrado.
O caminho percorrido por Lacan: do chiste ao gozo: uma mudança de parâmetro na metapsicologia
Para compreender por que o a prosódia do manhês pode ser pensado como a forma primeira de manifestação da lalingua, é necessário situar esta formulação no interior da mudança de parâmetro que atravessa a obra de Lacan à partir de 1971. Isto vai nos permitir articular a prosódia materna, o gozo do Outro barrado do grafo do desejo o circuito da pulsão.
Para isto vamos retomar o texto de Freud O chiste e sua relação com o inconsciente (1905), tal como Lacan o relê no Seminário 5, As formações do inconsciente (1957–58).
Freud parte de um episódio narrado por Heinrich Heine em Os banhos de Lucca, no qual o pobre judeu Hyacinth Hirsch, cortador de unhas, é recebido por seu tio, Salomão Rothschild. Ao narrar como o tio o recebeu, o pobre judeu diz: “de maneira absolutamente familionária”. O termo não existe claro, nem em alemão, e alias nem em português. Heine em seu livro não faz muitos comentários sobre esta condensação. Ato falho? Ignorância?
Freud se interessou muito pelo assunto, fez deste ato falho um chiste. Mas ele havia lido o filósofo Friedrich Theodor Vischer que, em sua Ästhetik (1857), introduz a noção de sideração (Verblüffung) seguida de iluminação — dois tempos que Freud retoma e que apaixonam Lacan. O primeiro tempo é o do estupor: um choque, uma suspensão, um desfalecimento momentâneo do sentido. O segundo é o do prazer intenso, que Freud ainda chama de prazer, mas que Lacan logo renomeia como gozo. Essa dupla temporalidade —estupor e gozo — é a matriz do chiste.
E é essa estrutura que Fernald encontra, empiricamente, na prosódia do manhês. Mesmo se ela utiliza os termos de grande surpresa e grande prazer. Foi por isto que há uns trinta anos atras decidi me consagrar à esta prosódia.
Lacan percebe que o chiste só tem valor se houver um Outro que se deixa surpreender, desnortear, descompletar. Esse Outro é o embrião do Ⱥ, o grande Outro barrado. E é esse movimento de estupor e gozo que ele inscreve no grafo do desejo sob a forma S(Ⱥ). É isso que acontece entre a mãe e o bebê.
O grafo do desejo
A construção do grafo do desejo é um dos momentos decisivos da obra de Lacan, e é impossível compreender o interesse da prosódia do manhês para um psicanalista sem retomar o percurso de sua elaboração. Penso que esta retomada vai nos permitir também entender como articular a prosódia do manhês como tempo inaugural do que Lacan chama lalingua.
O grafo não surge de uma vez: ele é preparado no Seminário 5, As formações do inconsciente (1957–58), encontra sua forma definitiva em Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano (1960).
Vamos tentar relê-lo à luz da pulsão em Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Depois tentar ir até o que Lacan traz com a lalingua na Terceira (1974) Essa progressão poderia nos permitir entrever como Lacan passa de uma concepção do inconsciente como estrutura significante para uma concepção do sujeito como efeito do gozo do Outro, através de uma concepção da pulsão como circuito que gira em torno de um objeto pequeno a : os rastro do lalingua que indicam o gozo do Outro.
No grafo, a linha superior representa o campo da demanda, da resposta do Outro. Mas, no caso do bebê, essa cadeia ainda não está articulada em significantes. O que existe é um endereçamento puro, uma mira, um apelo. O manhês opera nesse nível: ele se endereça ao bebê. Ele o convoca, o faz existir como destinatário. O bebê é visado pela lalingua do Outro, ou seja, pela prosódia do manhês do outro. Se o bebê responder, com sua voz, com seu olhar, com gestos, ele fisga o gozo do Outro barrado, o que ele capta porque ouve sua prosódia de manhês que implica uma grande surpresa e um grande prazer. Aqui estamos reencontrando as observações de Anne Fernald, a primeira que descreveu este fenômeno na psicolinguística . O que no grafo do desejo de Lacan se escreve S(Ⱥ), isto é: o gozo do grande Outro barrado. Barrado porque faltante, senão como poderia se surpreender e ainda menos ficar siderado? Aqui usamos o adjetivo que Freud e Lacan retomam ao estudarem os chiste. Esta sideração e este prazer produzem na voz uma curva particular de subida e descida e penso que é ela que vai se inscrever como objeto a em torno do qual vai girar a pulsão. Isto é um dos componentes do lalingua.
Para mim, pessoalmente, a maneira como Lacan trata a questão da pulsão nestes seminários onde constrói o grafo, ainda é balbuciante. Porém ela vai se tornar luminosa à partir dos Quatro conceitos fundamentais ( 1964) quando vai rearticular o terceiro tempo de Freud, que este chamava de passivo, fazendo dele o momento logico em que o gozo do outro ( um outro real em carne e osso) é fígado, constituindo então a função Grande Outro. Por conta da prematuridade constitutiva do pequeno homem, seduzir e fisgar o gozo deste pequeno outro é vital para sua sobrevivência. O bebê aprende que o fisgou ouvindo lalingua que sua presença, olhar, voz, movimento desencadeiam neste outro. Ele responde no mesmo registro e a função grande Outro se constrói. A voz do outro materno que ele ouve é portadora da prosódia do manhês de que os psicolinguistas falam tanto.
Como já disse, faço a hipótese que o objeto a, em torno do que giram os três tempos da pulsão tem a ver com esta lalingua. E que ela tem a ver com a constituição do que Lacan chama das Ding. Este termo ele encontrou em Freud lendo o seu texto o Projeto. Como articular o que acabamos de lembrar com o Projeto de Freud?
Vamos ter de dar uma volta atras no tempo e repensar os elementos que interessam Freud quando redige seu Projeto ( Entwurf). Para Freud, como se sabe, a estrutura de um ser vivo é, antes de tudo, dominada por um processo de homeostasia; segundo ele, a primeira função do aparelho psíquico é isolar o sujeito das excitações do mundo exterior, e só deixar passar pequenas frações das quantidades que se apresentam nele. A esse registro do primeiro “eu”[1] — o Real Ich da homeostasia — corresponde a defesa primária: cujo único objetivo é proteger o aparelho psíquico contra a dor ou simplesmente o desprazer. Hoje sabemos, e o texto de Camille Perrolet no inicio deste livro é brilhante, que nos bebês que vão se tornar autistas mais tarde esta defesa primaria fracassa. Freud concebe esta defesa primaria como exercida pelas terminações nervosas que se encontram na superfície do sistema phi. Este sistema phi é o que se encontra em contato com o mundo exterior. Então, os sintomas de que nos preocupam nestes bebês ( recusa de olhar, de ouvir) nada mais são do que mecanismos de defesa – segundo Frances Tustin – autísticos, que vem suprir à defesa primaria do sistema neurônico do Real Ich que não tem como dar conta.
Tudo isto tem a ver com as excitações oriundas do mundo externo. Mas e como isto ocorre com a excitações oriundas do interior do organismo?
Mesmo para o bebê típico, desde o início, tudo é complicado, pois, devido à sua prematuridade, o bebê humano é incapaz de realizar sozinho a ação específica capaz de fazer cessar a excitação proveniente do interior do aparelho psíquico e, portanto, o desagrado que a acompanha.
No Projeto, Freud introduz a noção de uma ajuda externa prestada por um indivíduo próximo, sensível ao sofrimento original (Hilflosigkeit) da criança. Esse semelhante (Nebenmensch), que intervém desde o início da vida psíquica, executa a ação especifica capaz de dissipar a excitação endógena e permitir a experiência de satisfação. Esta tem consequências radicais sobre a complexificação do aparelho psíquico, pois deixará traços mnésicos de lembrança de várias ordens. Em primeiro lugar, os da descarga motora produzida por uma série de movimentos, entre os quais os que põem fim à experiência de desprazer. Em seguida, o investimento de uma série de traços mnésicos que correspondem à percepção do “objeto socorredor”, bem como às conexões entre essas duas ordens de imagens de memória. Desde que a experiência de satisfação seja repetida com frequência suficiente, com o ressurgimento do estado de impulso, ( cito Freud) o investimento encontrará conexões eficazes para reconduzi-lo a esse conjunto de imagens de memória que Freud chama de Wunschvorstellungen, representações de desejo[2], e para vivificá-las. Como sabemos, essa revitalização produzirá o mesmo que uma percepção; trata-se da satisfação alucinatória primária, que é, portanto, central para a experiência humana.
O pólo alucinatório que ali se constituirá é de dupla faceta: por um lado, se uma ação reflexa for desencadeada a partir dele, haverá certamente decepção, diz Freud, ou seja, desprazer[3]. Portanto, não convém que esse polo seja excessivamente investido, e será uma das funções da defesa primária — a do primeiro Ich — regular a quantidade de investimento que lhe é direcionada[2].
Mas, por outro lado, é somente graças à experiência repetida de satisfação, criando caminhos duradouros em direção ao complexo das representações do desejo situado nesse mesmo polo alucinatório, que o mundo da representação pode se organizar, que a complexidade da representância de representação pode se estabelecer. Vamos ver por quê. Se, graças à função inibitória do eu, não houver um investimento excessivo nesse polo das representações do desejo, não haverá satisfação alucinatória propriamente dita, e o investimento que lhe pertence se direcionará para o polo perceptivo, transformando-se em atenção psíquica em busca do objeto de satisfação no mundo exterior. Em seguida, será necessário avaliar as novas percepções à luz das representações inscritas no polo alucinatório. Este servirá, de certa forma, como padrão de referência. Como o objeto da realidade nunca será totalmente semelhante ao da representação do desejo, e como é necessário que o aparelho psíquico encontre semelhanças antes de autorizar a resposta motora específica, novos caminhos entre as representações se estabelecerão. Trata-se dos processos de julgar e de reconhecer que se instaurarão nesse momento, e com eles toda a complexidade dos pensamentos inconscientes. Mas isso só pode ocorrer desde que a conexão que conduz ao conjunto do complexo de representações do desejo continue sendo investida de forma duradoura.
As imagens de memória ligadas a esse objeto primeiro que Freud chama de próximo são de natureza complexa, diz-nos ele. O próximo aqui em questão se alinha, como veremos, à noção de um Outro primordial e inesquecível. Vale ressaltar que o Projeto é um dos raros textos freudianos, se não o único, em que explicitamente o papel do Outro estrutura a própria organização do inconsciente, e isso desde o início, sem que seja evocado qualquer autoerotismo prévio.
Esse próximo é, ao mesmo tempo, o primeiro objeto de satisfação e o primeiro objeto hostil, além de ser a única força salvadora. Freud nos diz que os complexos perceptivos que dele emanam se dividem em dois componentes, dos quais “um se impõe como estrutura constante, permanece reunido como Coisa (das Ding), enquanto o outro pode ser compreendido em um trabalho de rememoração”; ele compreende os atributos.
“Das Ding”, a componente não especularizável do complexo do próximo
Vamos analisar de mais perto esta primeira parte que permanece reunida como Coisa (das Ding). Freud diz que se trata de “complexos perceptivos novos e incomparáveis que partem desse próximo” e acrescenta — por exemplo, no domínio visual, os traços[3]. Esses traços, por minha parte, entendo como os traços do rosto. Isto me autoriza a pensar que o bebê de risco de autismo – por não ter filtros que lhe permitam suportar a preocupação materna da qual estes traços podem ser portadores – é obrigado a se proteger. E ele o faz evitando olhar este rosto. Queixa central de tantas destas mães : “este bebê não me olha”. Perdeu-se muito tempo na psicanalise pensando que, se o bebê não podia olha-la, era porque ela tinha um excesso de preocupação e que o problema era apenas ajuda-la. Claro que, em pouco tempo, ela fica excessivamente preocupada. Quem não ficaria? Mas estamos diante do efeito e não da causa. Num papo que tivemos este ano, Joshua Durban[4], me dizia: “estes bebês não tem como lidar com a preocupação materna primaria”[5]. Esta que Winnicott considera como definindo a mãe suficientemente boa!
Sabemos que Lacan deu um papel central a este das Ding em sua metapsicologia. Vamos então repetir a frase de Freud quando evoca das Ding: “trata-se de complexos perceptivos novos e incomparáveis que partem desse próximo, por exemplo, no domínio visual, os traços”.
Já que Freud diz “ por exemplo no nível visual os traços”, nada me impede de pensar : e no nível acústico os elementos da voz portadores do lalíngua, ou do que os psicolinguistas descrevem como a prosódia do manhês.
Ora, se o bebê de risco tem de se proteger dos traços do rosto da mãe até mesmo quando mostram uma simples preocupação materna primaria, vai ser difícil para ela produzir uma prosódia portadora de surpresa e grande prazer. Um bebê que não nos olha nos causa preocupação, não prazer. No entanto, nos filmes caseiros dos bebês que se tornaram mais tarde autistas, vimos que quando os pais conseguiam momentos milagres, em que a surpresa e o prazer dominavam a relação com o bebê – se este estivesse bem instalado, com as costas todas apoiadas[6] ele olhava.
Isto é uma imensa abertura terapêutica para o analista que o recebe em sessão com sua mãe, porque ele é pago para ser capaz, no semblante, de deixar no vestiário toda e qualquer preocupação e na sessão poder produzir esta lalíngua portadora do gozo[7]. O bebê vem busca-la e entra na relação. Mas isto também é causa de muitos enganos diagnósticos por parte dos pediatras à quem estas mães se endereçaram, preocupadas por este bebê que não as olhava. Os pediatras, por vocação falam pediatrês, uma variante do manhês, e são capazes de achar cada novo bebê que chega – uma graça! Resultado: o bebê os olha e até sorri. A mãe é desautorizada em sua preocupação. Quando, um ano ou dois depois, o pediatra se der conta de que ela tinha razão, vai ser tarde demais.
Retorno a das Ding enquanto conceito psicanalítico
Embora Freud faça várias alusões à das Ding no Projeto, ele só se tornará um conceito propriamente psicanalítico em 1960, quando Lacan acrescentará que essa Coisa: «é o que se encontra no ponto inicial — logica e, cronologicamente — da organização do mundo no psiquismo, que se isola como o termo estranho em torno do qual girará todo o movimento da representação (Vorstellung) que Freud nos mostra regido por um princípio regulador, o chamado princípio do prazer, ligado ao funcionamento do aparelho neuronal»[[8]].
Parto de Freud dizendo de das Ding : “por exemplo no nível visual os traços” e completo com : por exemplo no nível acústico o gozo do Outro no lalingua. Isto me permite afirmar com Freud e Lacan que essa Coisa, este das Ding, é o elemento não especularizável do gozo do Outro.
Ao falar do circuito da pulsão, Lacan vai dizer que circula em torno de um vazio. Porém, nos anos seguintes, o das Ding, – o objeto “a” – que passará a ser o objeto em torno do qual gira a pulsão. Mas já em 1960, retomando o que diz Freud, Lacan lembrará que essa Coisa ( das Ding) não pode ser nem reevocada pela criança nem comparada às suas experiências do próprio corpo. Essa especificidade de ser incomparável às experiências corporais da criança corresponde ao que Lacan chamará, em 1963, de parte não especularizável.
Todo o trabalho de comparação entre os atributos do próximo e os traços mnésicos que a criança pode reevocar constitui o conhecer e o julgar, que pressupõem processos de pensamento complexos, ou seja, todo um circuito de conexões entre representações, em torno dessa Coisa, em busca da semelhança com seus atributos. Mas, para que essa busca seja possível, é indispensável que as representações ligadas a essa Coisa permaneçam como um polo duradouramente investido. Ou seja que as defesas autísticas[9] ligadas à dor que o excesso de excitação não filtrada produz nos bebês de risco, venha por tudo a perder. Não nos esqueçamos da frase de Freud neste mesmo texto: que a dor pode vir destruir tudo o que se construía como um raio que cai sobre uma casa.
Para que enquanto analistas sejamos capazes de permitir que o gozo do Outro do lalingua se inscreva no polo alucinatório de satisfação entendemos pois que devemos trabalhar em transdisciplinaridade com os profissionais que vão permitir que a dor não venha destruir este polo tão importante para a vida psíquica. Por isto o artigo de Perrolet et Beaulieu sobre a dor abriu este livro.
[1] Lalingua é um neologismo proposto por Antonio Quinet para traduzir o neologismo de Lacan lalangue. Quinet ressalta que o termo mantém o lala da lalação
[2] O critério de intervenção da defesa primária é, mais uma vez, de natureza econômica: evitar o desprazer. Nesse mesmo texto, Freud retomará o papel inibidor do eu sobre o polo alucinatório em termos finalistas, ao falar da sobrevivência do organismo.
[3] FREUD, S.: O Projeto. O termo de Das Ding , é um destaque introduzido na leitura por Lacan e, para encontrá-lo, é necessário recorrer à edição alemã: G.W., vol. sup., p. 426, (H., p. 24)
[4] O mais importante dos psicanalistas da escola de Frances Tustin hoje em dia.
[5] “this babies, they can’t cope with the primary maternal preoccupation”
[6] Os problemas motores destes bebês complicam muito a possiblidade deles de inscreverem as coordenadas de prazer do Outro socorredor.
[7] Quando fiz minha analise com Lacan à partir de 1972, ele utilizava esta lalingua. Talvez por isto este trabalho de reanimação psíquica dos bebês me foi acessível.
[8] LACAN J.: O Seminário, Livro VII, A Ética da Psicanálise,*.
[9] No sentido em que a escola de Tustin as emprega: como vindo fazer suplência aos filtros inatos contra o excesso de excitação que estes bebês não possuem ao nascer.