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Lacan e os judeus

MELMAN Charles
Date publication : 11/02/2021
Dossier : Traduction éditoriaux
Sous dossier : En portuguais

 

Lacan e os judeus

 

É preciso ser inocente para não entender que a escolha de Roma para inaugurar um ensino fundado sobre a primazia do Verbo foi em reação à prevalência de Jerusalém no campo da psicanálise, principalmente depois da guerra. E apesar do fato de que antes dela foram a Opus Dei e a Ação francesa que aí introduziram seus inspetores a fim de controlar uma “influência germânica sobre a bela juventude francesa”. Está escrito sem dissimulação nas entregas de 1938 da Revista francesa de Psicanálise, da qual pouco antes fora discutida a escolha do presidente de honra, Freud ou então o Pr. Claude, obsequioso pedopsiquiatra que aceitava dar acolhida aos psicanalistas, aí incluídos aqueles enviados por Viena à Paris.

Esse engajamento romano de Lacan prendia-se igualmente à necessidade de dar conta da realidade social (o P.C. “Parti Communiste” era então violentamente hostil a essa « ciência burguesa » e individualista) que numa familiaridade judaica com a idéia de que um saber divino enigmático e sempre a questionar ordenava o mundo e suas criações. A busca de um saber assim diretor no inconsciente era  de certa forma homogênea ao recalcamento histórico do judaísmo pelo cristianismo e incluía o postulado de que a importante descoberta era a sede de uma presença apta a curar os defeitos da presença no mundo.

É claro para Lacan (para Jung foi diferente) que um tal postulado colocava um termo ao corte maior da descoberta freudiana, seja a habitação do sujeito por uma ordem sem pé nem cabeça com a qual ele se debatia para seu maior desconforto, aquele da linguagem. A revelação, a verdadeira, foi que seu elemento material determinante era não o Verbo, que postula o emissor benevolente em suma, mas a letra da qual não se pode dizer que ela não deva nada a ninguém, mas que ela está ligada, pela separação, a algum Um, completamente surdo, cego e indiferente. Aquele justamente que a histérica tenta apiedar-se antes de se sacrirficar inteiramente para tentar ali substituir a figura da profusão generosa e distributiva.

Essa descoberta, ela merece esse nome, aquele do papel determinante da letra no destino de um sujeito, tem podido fazer Lacan crer que ela lhe valeria algum interesse por parte daqueles que, a partir de Jerusalém, honram esse poder criador de um Deus que não tem outro corpo e outro meio senão aquele da letra.

Que isso não tenha sido de modo algum o caso tem podido apenas acrescentar a seu sentimento de que a neurose e a estupidez seriam vitoriosas.

 

                                                                                                                                                                                                                              Charles Melman

                                                                                                                                                                                                                     27 de janeiro de 2021

 

Traduction faite par Letícia Fonsêca

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