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Do bom uso da guerra

MELMAN Charles
Date publication : 30/11/2020
Dossier : Traduction éditoriaux
Sous dossier : En portuguais

 

Do bom uso da guerra

 

É conhecido que o estado de guerra é sobretudo favorável aos neuróticos. Uma ameaça francamente exterior e que recai sobre a manutenção da vida parece aliviar as dores do desejo. Talvez também suponha uma reconciliação com o deus interior ameaçado não mais por seus filhos mas pelo estrangeiro.

Graças à guerra, deus está enfim consigo, bela solidariedade, e isso igualmente – é insuportável dizer – se for aquele do inimigo. Eu pude ver, em 1940, a mutação de uma população reputada corajosa e guerreira e passada sem remorso à colaboração.

O apelo de 18 de junho foi mais simbólico que tornado memorável pelo número de seus auditores. O que quer que seja, podemos verificar hoje que a ameaça vital representada pela epidemia é bem suportada. Do ocupar-se ao dever defender sua pele, inclina-se a afastar o resto. Tanto que a ameaça representada pelo roça-roça acalma a generalização dos ardores, inclusive especulativos.

A lei moral que aí se impõe colocou uma máscara de caveira. E não fosse  porque ela pode impedir de trabalhar, de ganhar a vida. Ganhar sua vida com o risco de perdê-la, eis aí exatamente um dilema com o qual o governo será sempre faltoso por não saber resolver. Tanto que a China vai chegar com sua vacina, que se terá que disputar como há pouco com a máscara,  e que seus turibulários vão se fazer cada vez mais numerosos.

Temo que nós não tenhamos em breve que lamentar, nos odores de incenso, os tormentos da neurose.

                                                                                                                                                                                                                                                                                       Charles Melman
26 de outubro de 2020
 
Traduction faite par Letícia Fonsêca

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