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Um hobby de Lacan

MELMAN Charles
Date publication : 24/07/2019

 

Um hobby de Lacan
 
 
Lacan era bizarro. Ele acreditava naquilo que ele fazia. A ideia de que era a ordem da linguagem que fazia a desordem do mundo o atormentava o bastante para querer comunicá-la a seu próximo. Então, ele passava nisso dias e noites, queimando as amizades para preservar o fio cortante da descoberta, oscilando entre a paixão e o ódio transferenciais que ele provocava, denunciado por Sylvia por seu donquixotismo, tratado com atemorização por suas amantes, devorado e traído pelos alunos cuidadosamente incubados, infamado ou ridicularizado por seus pares, mantidos à distância por Jakobson de quem ele esperava uma revisão da linguística, colocada na lista negra por Lévi-Strauss que não lhe perdoava, como se ele fosse o mestre absoluto, o suicídio de seu aluno preferido; em suma, era preciso ter um caráter muito forte para sustentar a barra! Um santo, dirão vocês, exceto que em seu caso a causa é afônica e cega.
 
Sim, vocês pensarão maliciosamente, mas todos esses golpes, isso devia fazê-lo gozar, ele os procurava. Não mais, sem dúvida do que o conduzia o masoquismo ordinário do psicanalista, pretexto destinado a ser evacuado para se tornar um postexto. E, se vocês não quiserem, façam outra coisa, jardinagem, ou tricô, tapando as orelhas.
 
Boas férias!
 
 
Charles Melman
26 de junho 2019
Traduction en portugais par Letícia Fonsêca

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