Accueil

 

A RELAÇÃO DE OBJETO E AS ESTRUTURAS FREUDIANAS – RESUMO DAS LIÇÕES 1 A 5

BON Norbert
Date publication : 30/04/2019

 

A RELAÇÃO DE OBJETO E AS ESTRUTURAS FREUDIANAS – RESUMO DAS LIÇÕES 1 A 5

 

NORBERT BON

Este comentário foi produzido a partir da última versão da ALI. Para os colegas que trabalham com a versão da Seuil[1], essas cinco primeiras lições estão reunidas sob o título “Teoria da falta de objeto”.

Lição I

Ela é chamada “introdução” nesta mesma versão. Lacan começa por justificar seu título do ano em sua totalidade: A relação de objeto e as estruturas freudianas. Esta noção de relação de objeto prevalece nesse início dos anos cinquenta nos escritos psicanalíticos franceses (notadamente com Maurice Bouvet, implicitamente visado por sua crítica). A segunda parte do título, omitida na versão da Seuil, indica que a questão só pode ser tratada se remetida à estrutura na qual se desloca a análise, a relação entre analista e analisado, com aquilo que implica na conduta técnica, relativamente às noções de transferência e resistência e, certamente, aquela do inconsciente, com os princípios de prazer e de realidade, e, enfim, a tomada em conta da articulação significante.

Lacan evoca a seguir seu esquema em Z, dito esquema L, com a justificativa de que os esquemas permitem, não a localização dos fenômenos, mas sua espacialização. E já aparece o termo topologia, a relação de lugares.

Este esquema inscreve a relação do sujeito ao Outro, o inconsciente, do qual o sujeito recebe sua mensagem, mas “deformada, interrompida, interceptada, e em definitivo desconhecida, pela relação imaginária a-a’”. Este grande Outro sendo ele próprio suscetível de enganá-lo.

Este esquema dá conta da experiência analítica de uma maneira que põe em questão a teoria da relação de objeto, que viria recentrar a dialética do princípio do prazer e do princípio de realidade em torno de uma relação dual que se trataria de retificar, normalizar. Lacan apoia sua crítica, notadamente, sobre um volume de Psicanálise nos dias de hoje – onde figuram os grandes nomes da SPP[2], nomes de primeira grandeza como Bouvet, sem os citar – indicando que essa teorização não pode ser sem efeito sobre a prática, orientando-a em direção a uma análise do eu, e não mais do inconsciente.

Lacan passa, de saída, por uma lembrança disso que é o objeto em Freud, não a “relação de objeto”, que não se encontra nele. Há, desde os Três ensaios sobre a sexualidade, a noção de “reencontro do objeto” (Objektfindung), depois a questão da relação do objeto e da realidade e, enfim, aquela da relação sujeito/objeto. Desde o Projeto, o objeto é colocado como objeto perdido que se trata de reencontrar (e não o objeto genital da teoria atual, que se trata de atingir na maturidade). O objeto perdido é o seio ao qual o sujeito está ligado pela nostalgia e que engendra a repetição, pois a satisfação originária suposta não é jamais reencontrada. Em um desvio pela filosofia, Lacan vê aí uma concepção platoniana de um objeto adequado, esperado, pré-formado e destinado à maturação. Ele opõe a ela a concepção de Kierkegaard no registro da repetição, e não mais a reminiscência, jamais satisfeita.

Há assim uma relação conflitiva do sujeito ao mundo entre o princípio de prazer e o princípio de realidade, o segundo impondo ao primeiro uma estruturação para obter uma certa satisfação, com uma distância entre isso que é procurado e o que é reencontrado, apreendido. Isso que procurarão mitigar as tentativas de satisfação alucinatória no bebê e, ulteriormente, no sonho. Mas é preciso notar que a relação sujeito/objeto não é central em Freud, salvo, talvez, nas relações ditas pré-genitais, entre o sujeito e seu parceiro: ver/ser visto, por exemplo, onde se exerce uma certa reciprocidade. É esta reciprocidade que levou Lacan à noção de estádio do espelho, com essa captura do sujeito por sua própria imagem, que tende a uma identificação, uma realização. O que conduz, numa reversão, a teorização atual a conceber essa tensão como visando a um ponto ideal, de realização, de acabamento do Desenvolvimento da libido, segundo o título de Karl Abraham[3], uma normalização do indivíduo.

Enfim, isso leva a colocar em primeiro plano as relações do sujeito a seu ambiente, com a justificativa desta evolução teórica pela evolução do contexto social, já que, após a primeira guerra mundial, teria aparecido a angústia de um mundo em mudança. A psicanálise é assim concebida como um “remédio social”. E Lacan retoma aqui aos textos da obra coletiva já evocada para aí criticar as noções de “relações sociais do doente”, ou aquela de “maturação das atividades instintuais”, que culmina numa distinção entre os “pré-genitais” e os “genitais”, os primeiros sendo “frágeis”, e a coerência de seu eu permanecendo dependente das relações objetais com um objeto “significativo”, concepção que estabelece um paralelismo entre maturação dos instintos e estruturação do eu.

O sujeito vai então procurar por todos os meios manter uma relação com um objeto significativo, espécie de eu auxiliar, enquanto que os genitais, esses têm um eu bastante forte para não dependerem de um tal objeto: “sua unidade não está à mercê da perda de contato com um objeto significativo”, eles são de uma “limpidez cristalina”, eles levam em conta as necessidades do objeto. Eu suponho que hoje em dia eles seriam dotados de uma grande empatia! Lacan aponta aí uma confusão entre objetividade (relação ideal à realidade) e objetalidade, ligada à plenitude do objeto. Ele observa, entretanto, que essa concepção primária da evolução individual não é compartilhada por todos: assim, para Glover, o objeto está longe de ser uma espécie de coaptação ao sujeito, mas vem mascarar, evitar o fundo de angústia que caracteriza a relação do sujeito ao mundo.

No que está delimitado pela versão da Seuil como terceira parte da lição, Lacan evoca a fobia, sublinhando a distância, a ausência de relação direta entre o “pretenso medo” que causaria este objeto e a concepção freudiana, onde, ao contrário, é o objeto que mantém à distância o perigo, constitui uma proteção. Freud situa o objeto como sinal de alarme, posto avançado, que pode aparecer em uma crise que não é nem típica, nem ligada à evolução, contrariamente ao que fará Glover colocando a construção do objeto paterno, em um sentido genético, como acabamento das “construções fóbicas primitivas”. Ele opera aí uma reversão do caminho que havia permitido à análise caminhar da fobia à angústia de castração, como parece pouco contestado. Idem para o fetiche, que preenche, de uma outra maneira, uma função de proteção contra a angústia de castração. Haverá então que se colocar todas essas questões da relação entre o objeto fóbico e o objeto fetiche, sem nos contentarmos com explicações uniformes para fenômenos diferentes. Senão que estão centrados sobre a questão da angústia, de onde Lacan tomará seu ponto de partida. E ele ironiza sobre o que seria uma moeda para um ser genital, evocando a introdução por Marx do termo fetichismo da mercadoria, para além da distinção do valor de uso e do valor de troca[4]. Ele anuncia, enfim, que sua próxima lição será sobre a fobia e o fetichismo.

Lição II

Nesta lição, Lacan anuncia que irá falar do objeto genital, a saber, a mulher, e ele leu, para fazer isso, um certo número de artigos sobre a sexualidade feminina. Artigos cujos conteúdos são de uma “bobagem infinita”, com a desculpa, é verdade, de que os enunciados de Freud sobre a questão podem ser abruptos. Contudo, ele colocou o dedo sobre o que é central, e que a psicanálise mostra – mas também simplesmente as relações do homem e da mulher: que o objeto não é nunca satisfatório. Lacan faz referência, aí, ao Mal Estar na Civilização.

O objeto não é, portanto, um objeto acabado, mas um objeto a ser reencontrado, até mesmo alucinado sobre um fundo de angústia. Lacan retorna ao terceiro ponto abordado na lição precedente: a reciprocidade imaginária. E ele prossegue sua análise crítica do artigo de Bouvet sobre o objeto para o obsessivo[5]. Um obssessivo é alguém, um ator, que joga como se estivesse morto, ele joga com um pequeno outro que é um duplo de si mesmo, seu alter ego, sob o olhar de um Outro. Jogo onde, na realidade, ele é, sem sabê-lo, ele mesmo um espectador, ao mesmo tempo em que comanda o jogo. Matando seu próprio desejo, ele se mantém fora do alcance dos golpes. E é neste lugar de espectador que ele coloca o analista no tratamento. Não podemos, portanto, dar conta deste jogo em termos de relacionamento dual. Tratando-se de como compreender o obsessivo neste artigo, Lacan compara sua situação àquela em que dois palhaços se dão um ao outro pares de tapas, e um terceiro vem pedir a cada um para engolir seu bastão, a saber: incorporar o falo.

E ele chega à noção de falo imaginário como terceiro na relação mãe-criança (esquema, p.55). Terceiro que a análise atual igora ao tratar essa relação como dual. Nesta fase, Lacan ainda não desenvolveu perfeitamente a distinção falo imaginário/falo simbólico, mesmo se ele evoca seu tríptico real, simbólico, imaginário, sem o qual não podemos entender o que se passa em termos de referência ao real, no sentido corrente de realidade. De onde, por exemplo, na condução do tratamento, os esforços de Bouvet para fazer um obsessivo reconhecer sua agressividade na forma latente de aborrecimento. Lacan critica, de passagem, a caracterização da ironia como um modo de agressividade. 

Ele chega, em seguida, à questão: o objeto é real ou não? E o fim da análise seria este acesso ao real onde encontraríamos o objeto? Ele relembra as discussões, na comunidade analítica, em torno da noção de falicismo e da necessidade de isolar, para alcançar essa noção, a categoria do imaginário, ou seja, distinguir pênis e falo. Coloca-se agora a questão do que colocamos sob o termo de real ou de realidade, já que, aqui também, Lacan ainda não fez disso a distinção clara, estabelecendo o real como o impossível. O termo alemão de Wirklichkeit, distinto de Realität, traz uma nuance que não exite em francês: aquela de uma efetividade, de uma eficiência.

Segue-se uma discussão em torno das concepções mecanodinamistas que reinam na época de Freud e o levam a articular as coisas em torno de uma perspectiva energética. E ele critica a tendência médica a relacionar os fenômenos a uma realidade orgânica (perspectiva à qual Freud renunciou ao abandonar o Projeto), com a ajuda de uma comparação com a operação de uma represa em um rio. Dizer que a represa vem canalizar uma energia que já estava lá, virtualmente, na correnteza, e que a represa revelaria, não nos adiantou nada. “Pois a energia começa a nos interessar apenas a partir do momento em que é acumulada” (p.62). O que nos interessa é a Wirklichkeit, a eficácia, a saber, a organização, a estruturação dos elementos que permitem essa produção de eletricidade. Dito de outra forma, para a análise, trata-se de entender os mecanismos sobre os quais nós nos deslocamos, e não de procurar uma explicação para eles em outro lugar que não em nossa prática. (Evidentemente, o que diz Lacan se aplica exatamente ao que se passa hoje em dia com as tentativas de explicar os fenômenos psíquicos pela imagem cerebral). 

Lacan retoma, em seguida, a noção de real em relação à oposição princípio de prazer/princípio de realidade, para sublinhar que o primeiro não é menos real que o segundo. E ele vai evocar, de forma elogiosa, o artigo de Winnicott sobre o objeto transicional, para mostrar como a criança vai precisar sair de uma posição onde objeto alucinado e objeto real correspondem perfeitamente, porque a mãe o traz assim que é demandado, para uma posição onde ela vai precisar prescindir dele, ao preço de uma desilusão, de uma frustração, termo que se tornou um termo chave nas publicações analíticas. E Winnicott assinala que isso não se passa apenas entre a mãe e a criança, mas que vêm aí se introduzir os objetos transicionais, que Lacan qualifica de imaginários, com uma aproximação com o fetiche: um lenço, uma ponta de lençol, etc.

Em seguida, Lacan expande a questão àquela da falta de objeto como mola da relação do sujeito ao mundo, e ele lembra que a análise da neurose começa com a noção de castração. A que será necessário adicionar um terceiro termo, o de privação. O resto da lição vai girar em torno da distinção entre esses três termos, para sair da confusão atual onde eles estão confundidos sob o termo de frustração.

            No plano do real, só podemos falar de privação: uma falta real é um buraco, não estamos aí no nível imaginário que o falicismo supõe.

            O que está no nível imaginário é a frustração, a saber, um dano, um prejuízo, o que faz da frustração o domínio da reinvindicação sem fim. Há implicitamente a ideia de que o objeto que me era devido, prometido, me é recusado. (Eu especifico que Versagung, que nos retorna como frustração através das traduções inglesas impróprias, é habitualmente traduzido por recusa, mas remete etimologicamente ao verbo sagen, dizer, e poderia ser traduzido com mais precisão por desdito.

            A castração, enfim: a partir daí, podemos concebê-la como uma dívida simbólica.

            Então, há aí três categorias da falta de objeto que Lacan articula com R S I,  distinguindo falta, objeto e agente. Dialética resumida no quadro da Lição IV, que parece já figurar, aqui, sob uma forma primitiva, na estenotipia. O objeto da castração não é real, ele é imaginário (de onde a questão: o que é o falo?), a não confundir com a frustração, que é uma falta imaginária de um objeto real. O objeto da privação, falta real, sendo um objeto simbólico. Não há de fato uma ausência no real senão simbolizada. É o que Lacan ilustra com o livro que falta na biblioteca apenas porque seu lugar é simbolizado e, eventualmente, marcado por um fantasma. Lacan esboça aí, de passagem, a ideia de uma evolução diferente, deste ponto de vista, entre o homem e a mulher, que encontrará sua formalização no seminário Encore (1972-73). Ele tomará em outro lugar o exemplo da ausência de pênis na menina, que só é uma privação pelo valor simbólico conferido ao órgão masculino.

Ele evoca, por fim, a noção de agente sob a forma de uma questão a trabalhar, que ele deixa aberta, para completar o quadro.

Lição III

Lacan começa por uma observação sobre a conferência da noite anterior a propósito da “A imagem do corpo”, feita por Françoise Dolto  na  Sociedade Francesa de Psicanálise, para indicar que essa imagem do corpo, precisamente, não é um objeto, mas uma formação imaginária. A hipótese de objetos imaginários é aquela da qual partimos na análise, para questioná-los. Ele relembra estes dois objetos que aparecem na experiência analítica: fóbico e fetiche, que permanecem misteriosos quanto à sua origem e gênese: por que ter medo de leões que não corremos o risco de encontrar em nossas regiões? Isto estaria inscrito como um dado primitivo? Não, isso não é suficiente. Notemos, de passagem, que o argumento é um pouco fraco: e no caso do cavalo, que podemos encontrar, ou do lobo, animal mítico de nossos contos e de nossos campos! O argumento convincente é que não é de um animal real que o fóbico tem medo, mas de um significante.

Da mesma forma, fetiches sexuais são limitados em número: sapatos, sutiã, etc., os quais não podemos explicar pela incidência deles em uma gênese. Eu acredito que haja ali uma crítica da teoria dos estádios de Françoise Dolto, incompreendida com tanta frequência, para enfatizar que precisamos nos ater menos ao que ela diz do que ao que ela faz, ou seja, que ela trata esses objetos como significantes.

Somos assim conduzidos à noção de significante. Lacan retorna à sua comparação com a represa, tendo notado uma certa incompreensão, especialmente com o comentário de um ouvinte sobre energia potencial, que lhe permite dizer que, de fato, a questão do antes se coloca: “o antes que um certo funcionamento simbólico seja exercido”. O que ele não nega: há o isso antes que um Je advenha. Mas o que é esse isso? Porque, para que a energia potencial tenha algum interesse, é preciso que as condições iniciais, ou seja, uma diferença de nível, tornem possível que dela se faça alguma coisa.

Na análise, postula-se uma energia que é a libido. Referi-la a um suporte biológico, hormonal, não tem nenhum interesse para a análise. O importante são seus efeitos, sua atividade (quer se trate de macho ou de fêmea), é o que daí se produz ao nível imaginário para organizar o laço sexual, o laço de desejo entre um ser humano e outro. Nesta comparação, o Es seria, não o gênio da corrente, mas a fábrica, sem que se saiba como ela funciona. Mas o Es é o que é suscetível de se tornar Je. Ele já é organizado pelo significante, como a fábrica, ele é construído pela operação do Espírito Santo, em todo caso, do espírito (Em A lógica da fantasia, Lacan irá distinguir o isso, como gramática acéfala, do inconsciente, onde ela é habitada por um sujeito).

Ele então retoma a questão referente às ligações conflitantes (dialéticas, e não apenas opostas) dos princípios de prazer e de realidade: lei de retorno ao repouso para o primeiro, lei de desvio, portanto ativo, para o segundo. O que a experiência mostra é que, em ambos, as duas tendências coexistem. E ele os vai articular aos dois níveis da fala: o significante e o significado. Ele recorda o esquema de Saussure, com os deslizamentos do significado sob o significante, e o fato de que é através do significante que podemos capturar algo da pulsão. Se há um antes, é possível, mas só podemos capturar dele aquilo que recebeu a marca do significante. O Espírito Santo é isso, a entrada no mundo dos significantes, dos quais ele assinala a ligação com o instinto de morte, que Freud mostra com o jogo do Fort-Da, na medida em que, nascido com a falta, o significado encontra seu limite nesta reflexão do homem sobre a morte (o significante faz com que o homem saiba que é mortal, mas que sua morte lhe seja impensável). “É a morte que é o suporte, a base, a operação do Espírito Santo através da qual o significante existe”

Ante a pergunta – é o significante o que é designado lá, no Es? – a resposta é sim, para a análise, “significante que já está lá no real”. Não é uma propriedade primitiva, como poderiam pensar os espíritos fracos, aquilo com que Jones se ornamenta com sua teoria das relações homem/mulher como harmoniosas, as dificuldades que aparecem aí sendo apenas secundárias. Freud postula, ao contrário, sobre a chamada fase fálica do desenvolvimento, não que haja uma única libido, mas “uma única representação imaginária primitiva do estado e do estágio genital”: é o falo, sua imagem ereta. O que pode ser discutido, mas indica que Freud não vai procurar uma referência do lado da natureza. Para Lacan, é do lado do significante que se há de buscar. É o jogo próprio aos significantes que organiza o psiquismo. O Es já está lá, e é isso que faz escândalo: não há coaptação natural do homem a seu meio ambiente.

Lacan retorna, então, a essa noção de morte como refletida no significado, inexplicável pela experiência e em obra na repetição (onde, precisamente, um significante não advém). Inversamente, existem elementos que estão no significado e que serão "emprestados" ao significante, dentre os quais precisamente o falo, a partir da ereção, e alguns outros em relação com o corpo (os orifícios, suponho), que serão simbolizados e obedecerão às articulações lógicas do significante. Ele relembra, a propósito dessa lógica, o jogo de par ou ímpar mencionado em "A carta roubada".

Na última parte da lição, ele retorna à experiência analítica, com ênfase na noção de reencontro com o objeto: Wiederbefindung. Ele evoca os “Três ensaios sobre a sexualidade”, com os muitos acréscimos e modificações trazidas por Freud, e que só podem ser compreendidos após o surgimento do texto sobre o narcisismo (1915), seguido do texto sobre "A organização genital infantil" (1920), onde Freud afirma que não há primado do genital na criança, mas um primado do falo.

Quanto ao narcisismo, não podemos pensar na libido de objeto sem relacioná-la com a libido do eu, centro de reserva a partir do qual pode-se estabelecer uma libido objetal. Daí o estabelecimento em dois tempos da libido, e o fato de que a tentativa de encontrar o objeto – a mãe – permanecerá marcada no adulto por esse primeiro tempo, pelo estilo primeiro deste objeto, com o que isso implica de conflituoso. Esta conservação na memória sem o conhecimento do sujeito depende de uma transmissão significante durante o período de latência, alimentando as funções imaginárias "eleitas" neste período pré-genital. É assim que uma camada imaginária é introduzida na dialética do simbólico e do real. Lacan faz notar, de passagem, que pré-genital não é equivalente a pré-edípico, como é frequentemente ouvido na comunidade analítica (pré-edípico aparece um ano depois, a propósito da sexualidade feminina). Desse período pré-genital, o Édipo reorganizará, posteriormente, os significantes tomados no significado, frequentemente o mais próximo possível da experiência vivida do corpo, especialmente o oral e o anal, mas já trabalhados pela lógica do significante.

Então, é em torno da falta de objeto que se deve organizar nossa experiência, com essas três formas: castração, frustração, privação, ao passo que a teorização atual tende a evitar a questão da castração e centrar tudo em torno da frustração, com o que disso deriva na prática: não frustrar na educação e, na análise, encontrar e reparar as frustrações passadas.

No final da lição, Lacan anuncia que se concentrará, na próxima vez, em retomar uma conferência de Annelise Schnurmann sobre o aparecimento de uma fobia em uma menina. É suficiente se ater, como o faz a autora, à questão da frustração, quando a referência aos três termos introduzidos por Lacan podem nos ajudar a entender o fenômeno? Ele lembra o que estes três termos significam, com um maior desenvolvimento para a privação, que vem contradizer a representação desenvolvimentista segundo a qual o sujeito tiraria toda a sua concepção do mundo de si próprio, do mesmo modo que a aranha tece seu fio. Trata-se de sair de uma concepção de desenvolvimento psicogenético ao final do qual se alcançariam os objetos reais do mundo humano, para, ao contrário, partir da falta de objeto como estruturando nosso mundo e nossa organização objetal. Isto em torno dos três tipos de falta, cujas diferenças Lacan reitera.

Ao final, ele volta à conferência de Dolto, que faz intervir na fobia a questão de um distúrbio na relação da mãe com seu progenitor do sexo oposto – e não apenas na relação da mãe com a criança. De onde se segue a questão do que a mãe vê na criança, o que ela deseja nela, e que ela aborda com seu próprio dano imaginário em relação à privação do falo, e a que a criança é confrontada. Finalmente, ele termina a lição abrindo caminhos a serem explorados nesta disposição mãe-falo-criança: imaginário refletido no simbólico ou elemento simbólico aparecendo no imaginário, como parece ser o caso na fobia, enquanto que, no fetichismo, a criança passaria a ocupar a posição materna em relação ao falo.

 

 

Lição IV

É esta a que a Seuil intitula "Dialética da frustração", e onde Lacan dá, desde o começo, o famoso quadro de dupla entrada ordenando falta/agente/objeto em relação à R S I, para sair dessa confusão que produziu que "saída de uma concepção, que escandalizou, das relações afetivas do homem", a de uma dificuldade essencial na relação com o sexual, pôde-se chegar ao inverso ao se propor a visada de se obter uma relação harmoniosa com ele. Dificuldade essencial, inerente à própria pulsão, como o coloca Freud em "Pulsões e destinos das pulsões". O que conduz a colocar o objeto como a ser reencontrado, objeto inadequado, e que se esquiva à apreensão conceitual (vê-se apontar aí o objeto a). De onde é preciso esclarecer e criticar essa noção de frustração, marginal em Freud, tornada central na psicanálise atual.

Lacan lembra, primeiro, que a colocação em primeiro plano da castração, por Freud, está ligada à posição central do complexo de Édipo, que coloca em jogo a questão da lei e da dívida simbólica, e o caráter imaginário do objeto: o falo. No quadro de Lacan, é a frustração que está, portanto, em posição central, mas isso não está em contradição com Freud, já que é com os traumas e com as fixações que, de início, temos de nos haver, e que testemunham os antecedentes pré-edipianos que virão inflectir o conflito edipiano.

Mas essa noção de frustração nos primeiros anos de vida induz à ideia de satisfações, gratificações necessárias, essenciais à criança, conduzindo o interesse para os elementos reais, as impressões reais, as condições reais do desenvolvimento. Enquanto que, em Freud, com os estágios oral, anal, fálico, estamos ao nível de uma "anatomia imaginária do desenvolvimento". (A imagem primordial do seio materno). Imaginário do qual a criança participa, ela não faz só se beneficiar ou sofrer dessas condições reais. Devemos, portanto, analisar a relação desse sujeito desejante à esse objeto real que é o seio.

Lacan destaca, de passagem, a questão do autoerotismo e as discussões que essa noção pôde suscitar. Balint, à sua maneira, tenta resolvê-la supondo uma perfeita reciprocidade entre isso que a criança exige da mãe e isso que ela exige dela. Lacan discutiu longamente essa concepção do "primary love" no seminário I, concepção contrária à toda experiência clínica, e que Alice Balint, aliás (eu acrescento: talvez porque ela seja mãe), modula escrevendo que isso só acontece com os selvagens, em outro lugar, no país do sonho! Lacan opõe a isso a teoria kleiniana, prolongando-se um pouco sobre as críticas que lhe fizeram Pasche e Renard, a saber, que ela colocaria tudo no interior do sujeito, como em um desenvolvimento biológico onde "todo o carvalho já estaria contido na semente". Nada lhe viria do exterior senão o choque em retorno, do campo materno, de suas próprias pulsões agressivas. Dito de outra forma, isso que, no desenvolvimento, é trazido do exterior, estaria já, de saída, em uma constelação interna. Lacan não detalha essas críticas, mas sublinha que a solução trazida por esses autores é que aquilo que a criança herdou de seus instintos, ela teria, não mais que descobri-lo, mas reconhecê-lo, o que é uma solução platoniana, finalmente próxima da posição que eles criticam em Melanie Klein, a de um "esquema pré-formado pronto a surgir em determinado ponto".

Lacan se coloca contra essa leitura da posição Kleiniana,  na qual é, ao contrário, um caos cheio de ruídos e furor pulsional que reina na origem. Claro, há aí um aspecto mítico que só se pode compreender como uma leitura retroativa da estrutura edipiana (os objetos no corpo da mãe: o pênis do pai, as crianças rivais, etc.). Mas o que é fecundo em Melanie Klein é que se possa descobrir esses elementos precocemente, na relação primordial mãe-criança, com, no centro, a questão da frustração, não como aquilo que ela não deveria ser, mas o que ela coloca em jogo, a saber:

- um objeto real numa relação direta (isto é, antes que a criança tenha dele uma representação), e onde vão aparecer furos, carências na sua periodicidade: um objeto que só tem instância como faltante.

- e a noção de agente, no caso, a mãe. Lacan o ilustra através do jogo Fort-Da, que ele já havia evocado no seminário I, onde o objeto é um carretel (e não uma bola), e o agente, a mãe, que, por suas presenças e ausências, permite à criança articular, através de suas primeiras vocalizações, Fort-Da, algo de uma primeira relação simbólica distinta da relação real. Porque o agente, a mãe, ela já participa de uma ordem simbólica, mesmo que isso não seja suficiente para constituí-la. Será preciso, portanto, uma virada nessa dialética, para que ela se abra a elementos mais complexos. Essa virada se deve ao fato de que, se a mãe não responde, ela se torna real, potência da qual depende a criança, e os objetos, até então objetos de satisfação, tornam-se objetos de dom: objetos alcançáveis, apropriáveis, marcados por esse poder da mãe de responder ou não, testemunhas de uma potência favorável. Reviravolta, portanto, em que a mãe se torna real, e o objeto, simbólico. É ela, portanto, que se torna onipotente – e não a criança, como formula toda uma "psicanálise genética" – e o que vai importar são as carências, as decepções que atingem toda essa onipotência materna. O objeto não é mais isso que está aí ou não está, mas isso que se pode dar ou recusar.

Na última parte desta lição, Lacan retoma as coisas de um outro ponto, a partir de Freud, que faz do falo um objeto particular, imaginário, quer dizer, distinto do pênis, com esse outro elemento, que falta à mulher como correlato real, precisa a Seuil. Prevalência imaginária também no homem, que, para dispor desse correlato real, não deve assumir menos imaginariamente o uso dele como lícito. Tratando-se da mãe, essa falta do objeto falo vai encontrar uma compensação em sua relação com a criança. E, se a criança espera e recebe alguma coisa, a mãe também, o que Lacan formula assim: "A criança, como real, assume para a mãe a função simbólica de sua necessidade imaginária". Os três termos estão aí, alegra-se ele.

A questão que se coloca em seguida é: como, em que momento, a criança será introduzida nessa estrutura simbólico-imaginário-real tal como ela se coloca para a mãe? O que é o falo para ela [mãe], com esse sentimento possível de se experimentar despossuída [criança] disso que ela [criança] espera dela [mãe], já que ela [criança] não seria mais amada por ela mesma (como equivalente do falo narcísico), mas pelo que representa. Ou, ainda, a questão (e não a afirmação, como consta na versão da Seuil): em que será decisivo para o sujeito o fato de que a mãe, não somente deseje outra coisa que não ela [criança], mas seja simplesmente desejante? (p.129)

A partir daí, Lacan vai passar à observação anunciada na última vez, um caso relatado por Annelise Shnurmann. Trata-se de uma criança de dois anos e meio que declara uma fobia de cães no dia seguinte a um sonho, em seguida à descoberta de seu afalicismo. Ao mesmo tempo em que articula sua primeira longa frase: “Os cachorros mordem as pernas dos meninos maus”. O cachorro é, portanto, o agente que retira isso que, de início, foi admitido como ausente. Isso é suficiente para explicar a fobia? Não para Lacan, que, após ter criticado as posições de Jones e Pasche, coloca o acento sobre o fato de que a fobia e o sonho só aparecem mais tarde, depois que uma ruptura interveio nas alternâncias presença/ausência da mãe, após uma doença e uma operação, seguida de seu retorno apoiada sobre uma bengala. Dito de outra forma, ela não é mais simbólica, ela é faltante. Essa descoberta rompe o equilíbrio e torna a fobia necessária. Ela é suficiente? Lacan remete a resposta à lição seguinte.        

Lacan evoca outro ponto: quando a mãe se casa novamente, o meio-irmão de Sandy estando particularmente interessado em sua nudez, a psicoterapeuta se surpreende que isso não relance a fobia, já que ele lhe demanda presentificar sua falta. Ao contrário, o que não espanta Lacan: por um lado, a presença de um pai introduz um elemento simbólico na relação potência/impotência com a mãe; por outro lado, preferida pela mãe, a menina se torna para esse menino e sua curiosidade a “girl-phallus”, segundo um termo de Fenichel, de quem Lacan comentará um artigo em uma lição posterior. Assim, a distância é mantida entre os três termos mãe-criança-falo. Como? Nós o veremos na lição seguinte.

Lição V

Lacan começa por felicitar-se de que seu desejo, irônico, de ver os pilares da relação de objeto explicitarem os implícitos que ele denuncia, realiza-se em um artigo de Michel Fain, mostrando que, assim como ele, Lacan, o sustentou, leva a conceber a relação analítica como uma relação entre o analisado e um objeto exterior, o analista, sobre quem, por causa da regra “tudo dizer e não se mexer”, o primeiro vai projetar seu objeto interno (sua pulsão erótica). O que permitirá ao analista assinalar a distância neurótica, a discordância em relação à realidade, o objetivo sendo o de reduzi-la, de fazer com que o analisado realize seu analista como presença real, que ele possa sentir seu cheiro, para tomar um outro exemplo citado por Lacan. (Acrescento que a referência ao bloqueio da motricidade lembra, obviamente, o do sono, em que a produção onírica é facilitada, e onde o sonho traz de volta à realidade).

Lacan considera, em seguida, as consequências práticas desta teorização sobre a relação analítica, assim conduzida equivocadamente. Isso não impede que permaneça em jogo esta relação tal qual Lacan a formalizou com o esquema L: a saber, o entrelaçamento da relação simbólica com a relação imaginaria, que a filtra e que, por ser desconhecida, não condiciona menos o “bom final” de análise. Nessa operação de redução, em que se trataria de enaltecer as diversas fixações imaginárias, desconhece-se a função da linguagem e da fala (título do relatório de Roma), interessando-se por ela apenas quando se trata de interpelações impulsivas, motoras, endereçadas ao analista, testemunhando a frustração: “você não diz nada!”.

Lacan prossegue com seu esquema L: se nós não levarmos em conta essa tensão entre a relação imaginária a-a’ e a relação simbólica A-S, onde se estabelece a transferência (portanto, simbólica), tensão a propósito da qual cada neurose estabelece sua própria regulação, se nós visarmos apenas a restabelecer, de forma por vezes forçada, uma boa distância entre elas, o que obteremos? O que ele pôde escutar de sujeitos que passaram por essa técnica permite à Lacan responder: reações perversas paradoxais, especialmente nos obsessivos, por exemplo, uma fixação homossexual, cristalização de uma imagem que se encontra a seu alcance.

Voltemos a essa tríade mãe-criança-falo, pré-genital, já que lhe falta o quarto termo, o pai. Estamos no ponto em que a criança percebe que a mãe é privada desse falo. Se a ligação da tríade se rompe, como no caso da menininha, o que se passa? É preciso antes examinar o que se passa em uma situação edipiana normal. A rivalidade instaurada com o pai permitirá uma identificação, em todo caso, para o menino, e lhe conferirá uma potência fálica, limitada pela ameaça prévia da castração, em uma espécie de pacto com a instância paterna.

Nesse momento, Lacan abre um parênteses para voltar à distinção feita por Freud entre relação anaclítica e relação narcísica, a primeira sendo fundada sobre a dependência à mãe, e a segunda sobre a relação à sua própria imagem. Duas escolhas de objeto diferentes, dois tipos de relação libidinal fixadas para o futuro na infância e na adolescência. O termo alemão Auflehnung significa apoio sobre. Na relação narcísica, é sua própria imagem que o sujeito busca, necessidade de amar mais do que de ser amado, segundo Freud. Lacan chama atenção aí para uma contradição: os narcísicos seriam assim levados à ação, a serem líderes culturais, políticos, etc., o que os aproximaria de uma tendência oblativa, característica do obsessivo. A posição anaclítica seria, ao contrário, uma posição de dependência infantil, em que o sujeito se crê o único depositário do falo, que é o objeto de desejo da mãe. Ele se situará, então, em relação à mulher que irá suceder a esse objeto materno primitivo, como um objeto indispensável: ele precisará de uma mulher que precisará dele como objeto. Isto para mostrar que o pai, como quarto termo, é necessário para introduzir a falta de objeto em uma dimensão simbólica (a castração), que instituirá tanto a lei (uma interdição) quanto um pacto. Se é a relação imaginária que prevalece, haverá outros modos de restabelecimento não típicos da tríade. Por exemplo, é a criança que assumirá a função de objeto fálico para a mãe, e isso será a perversão fetichista, que será um modo de acesso a um mais além do outro, especialmente nos momentos de passagem ao ato, quando se realizaria uma fusão que podemos qualificar, acompanhando Freud, de erótica. Momento não ordenado simbolicamente, frágil, transitório, até mesmo virtual: o ideal é, de fato, que o objeto seja inanimado, em todo caso, desprovido de qualquer propriedade subjetiva. E, acrescenta Lacan, sendo a relação imaginária recíproca, poderemos ver o sujeito fetichista passar de uma à outra posição: identificação com a mãe/identificação com o objeto. Posição que não permite estabelecer um equilíbrio erótico durável, como veremos, mais adiante, a partir de um caso.

Mas ele evoca primeiro um caso de Phyllis Greenacre que se passa, de um lado a outro, em uma relação especular, sempre entre dois espelhos, diz ela, tão bem que nunca sabemos onde ele está, o fetiche tendo como função estabilizar sua posição. E, se centrarmos a análise por inteiro na relação de objeto, podemos esperar produzir fenômenos de natureza perversa. Lacan retoma o termo de Bundling, que ele utilizou em seu relatório de Roma, técnica utilizada na relação amorosa que consiste em honrar uma visita fazendo-lhe dividir a cama com a moça da casa, mas esta estando embrulhada em um lençol que impede a realização última. É a isso que pode ser comparada a análise centrada na relação de objeto.

Ele dá um exemplo, a partir do artigo já citado de Marty e Fain, onde são anotados os impulsos motores da paciente, nessa proximidade imposta, em direção ao analista como objeto exterior, suscitando as ondas pulsionais, mas permanecendo à distância. Ele evoca, nesse movimento, os trabalhos de Koyré sobre os místicos, no caso, os Amish, e igualmente a prática do amor cortês, onde é buscado esse mais além erótico, em uma abordagem amorosa refreada. Maneira de se utilizar de forma deliberada da relação imaginária, finalmente regulada simbolicamente.

Ele  recorre, em seguida, ao artigo de Ruth Lébovici onde é apresentada a análise de um sujeito fóbico. Trata-se de um homem que se acha tão alto, que anda curvado e reduz suas relações ao círculo familiar, com, entretanto, uma amante mais velha, fornecida por sua mãe. O objeto fóbico surge em um sonho sob a forma de um homem de armadura, armado com um tubo de fly-tox, que o encurrala e que poderia sufocá-lo. Ela interpreta esse homem de armadura como a mãe fálica, interpretação que parece ser o ponto de partida de uma perversão transitória. A autora, nota Lacan, coloca-se as questões certas, e se pergunta se essa interpretação seria a correta. Segue-se, de fato, um período de três anos em que se desenvolve essa perversão: fantasia de ser visto urinando por uma mulher a quem isso excite, e então de ver uma mulher urinando e se masturbando ou não. E vem a descoberta, em um cinema, de uma salinha de onde ele pode observar as mulheres nos banheiros ao lado. Para Lacan, não é a mãe fálica que está em questão, mas a mãe em sua relação com o falo. A autora questiona justamente suas posições contratransferenciais. Ela fez bem em introduzir de forma forçada o personagem masculino, a saber, o marido da mãe? A grosso modo: olhar uma mulher urinar ao invés de tomar de assalto uma mulher casada. Da mesma forma, para uma interpretação que se pode qualificar de ego a ego, diante da demanda de reduzir o ritmo das sessões: “Você me pede isso porque você sabe que você não o terá!” O que tem como efeito trazer as fantasias para o interior da relação analisado-analista: ele formula seu medo de urinar no divã, espia as pernas da analista, aparentemente para a satisfação desta. Para Lacan, ele a constitui, assim, como afálica, já que sabemos que o fetichista detém seu olhar precisamente no limite que permite permanecer na incerteza quanto ao fato de que ela tenha ou não o falo. Essa redução da distância desemboca na ideia do paciente de que ele deveria trepar com seu analista, que lhe devolve a mesma interpretação: “Você se assusta com algo que não vai acontecer!” (p.164). É aí que intervém a passagem ao ato do mictório, quando, de um lugar onde ele é mantido à distância, ele pode observar a mãe afálica. Segue-se uma operação de varizes, ele retorna para sua amante, sua fobia está curada, mas ele se preocupa com o tamanho de seus sapatos! Lacan percebe a sutileza da observação e o fato de que não se trata de uma estrutura perversa, mas de um artefato: essa conduta cessará imediatamente no momento em que ele for surpreendido por uma funcionária desse lugar que o real veio lhe oferecer oportunamente. E Lacan conclui ironicamente: “O real oferece sempre oportunamente tudo aquilo de que precisamos quando finalmente fomos regulados pela boa distância”.

(Tradução e revisão do texto realizados por: Sylvia Morrard, Eduardo Rocha, Silvia Venturini, Raquel Correa, Raquel Fialho, João Paulo Koglin e Marcela Americano)

 

[1] Nota de tradução: versão correspondente à tradução da Zahar, em português, do Brasil.

[2] Nota de tradução: Sociedade de Psicanalítica de Paris.

[3] K. Abraham, 1913-1925, “Développement de la libido”, Œuvre 2, Paris, Payot, 1966.

[4] K. Marx, 1867, “Le caractère fétiche de la marchandise et son secret”, Le capital, livre I, Paris, Champs/Flammarion, p.68-76.

[5] M. Bouvet, 1953, “Le moi dans la névrose obsessionnelle. Relations d’objet et mécanismes de défense”, La relation d’objet, Paris, PUF, 2006.

Espace personnel