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O QUE PODE NOS ENSINAR HOJE EM DIA O CASO DA JOVEM HOMOSSEXUAL?

MELMAN Charles
Date publication : 30/04/2019

 

O QUE PODE NOS ENSINAR HOJE EM DIA O CASO DA JOVEM HOMOSSEXUAL?[1]

Charles Melman

Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer fortemente àqueles e àquelas que intervieram manifestando seu trabalho, seu interesse, e frequentemente a originalidade de seu aporte sobre esse tema que pudemos tratar, o que é raro nos tempos atuais, eu acho, sem que muita patologia venha se infiltrar nos propósitos... Eu creio que, apenas com isso, já seria considerável!

No que me concerne, o que me apaixona neste caso, observo aqui que ele se lê absolutamente como se lê uma novela, e como uma novela, isso já foi dito aliás, que poderia ter sido escrita por Borges. Quero dizer que nela encontramos de tudo, primeiro o relato, em seguida a análise do caso, e depois, com o último capítulo, essa coisa admirável que Freud diz: “tudo que contei parece mesmo notável, parece mesmo se sustentar muito bem, mas em realidade, se retomarmos as coisas num outro sentido, numa outra direção, não a partir da conclusão, mas dos conceitos psicanalíticos, percebe-se que, em cada encruzilhada, poderiam ter-se desenvolvido, para essa jovem opções, escolhas, decisões completamente diferentes; e portanto, finalmente, diz ele, tudo que trago a vocês permanece, afinal, eminentemente problemático”. É por isso que ele vai pender, como sempre faz nesses casos, para suas referências econômicas: “há qualidade, há pulsões que têm sem dúvida uma força que não podemos apreciar...” E a última página é bastante admirável, já que termina com referências anatômicas, orgânicas, e que seria preciso ir buscar do lado da química e do orgânico as respostas às questões que permaneceram aí perfeitamente em suspensão. Donde a legitimidade de nossa retomada...

Eu começarei fazendo vocês observarem que, de uma mulher, isso é admirável, pode-se esperar tudo. Você pode pedir a ela mais ou menos – mais ou menos! – tudo. Você pede a ela para fazer a criança, então ela encarna a criança, ela fabrica uma... Você gosta de gatos? Ela fará o gato, seja os encarnando, seja os fabricando... Você gosta de panteras? Você prefere? Ela será pantera. Você gosta de meninos? Ela será... e como! Quando ela vê que seu jovem esposo tem tanta dificuldade em deixar seus amigos, e que à noite ele teria mais tendência a ir se encontrar com eles do que a ficar com ela, se é o que dela se espera, nenhum problema! Ela será (e muito! e como!) menino. Durante a guerra, elas se puseram a tornear morteiros nas usinas, a conduzir o arado da carroça, e depois, hoje em dia, continua-se evidentemente a pedir-lhes que façam de tudo, e aproveita-se, aliás, para subpagá-las, o que é sempre um bom negócio!

Ah, sim! Esqueço uma coisa interessante, uma coisa que ela até mesmo é capaz de fazer, até isso! Ela é capaz de ser uma mulher.

Mas é isso que coloca um problema, porque... Qual é o traço? O que ela deveria endossar para garantir essa função? Porque, na medida em que não há referente que venha fundar a feminilidade, que não há esse ao-menos-Um... O problema para uma mulher é mesmo o de saber qual seria o traço suscetível de fazê-la valer e de fazê-la reconhecer como mulher, que então, desse lado, lhe asseguraria uma certa tranquilidade. É bem por isso que ela está pronta a fazer tudo que se lhe pede, que o desejo, aqui, do Outro, que o desejo social, está eminentemente engajado.

Então, se dirá, ser uma mulher é finalmente ser capaz de ser sedutora para um homem. Isso não é verdade! Há muitos homens que preferem as pequenas violetas escondidas na grama, criaturas discretas...

Com essa observação, já podemos ver que uma mulher moleque não coloca nenhum problema, até funciona muito bem! Pois, Freud já havia sublinhado, conhecemos a grande inclinação homossexual da criatura macho, e que ele tenha que se haver com uma moleca não haveria de perturbá-lo em demasia.

No entanto, há com das Mädchen alguma coisa completamente outra. É justamente toda essa mascarada que ela recusa. Ela diz: “não, tudo isso, eu não quero!” E o momento em que podemos dizer efetivamente que ela vai fazer escândalo é quando ela vai passar para o outro lado, não justamente para o lado em que se devem colocar as mulheres, com essa plasticidade que acabo de evocar. Ela vai passar para o lado dos homens, com, evidentemente, a exibição de alguns traços puramente imaginários, como se deve, mas que são suficientemente evocadores e falantes: compreendemo-los, deciframo-los.

No mesmo golpe.... ela não será mais homossexual. Se ela já terá sido algum dia. Aí está a dificuldade dessa observação, e é por isso que a observação de Lacan é tão importante, é que, vindo colocar-se do lado do homem, ela é como um homem, e que gosta das mulheres. Evidentemente, é um pouco mais rico, já que ela pode eventualmente reconhecer em seu objeto sua própria imagem; portanto, não há aí o que perder, não há aí que se aceitar o corte que a heterossexualidade exerce sobre o narcisismo. É preciso renunciar a seu próprio narcisismo, em todo caso, do lado do homem, quando ele se engaja a amar uma mulher. E está aí um limite frequentemente sensível na economia do casal, e que causa bem evidentemente um certo número de dificuldades.

No caso que nos concerne, há aí um sucesso absolutamente claro, afirmado, ela se coloca do lado homem e, portanto, perfeitamente à altura de entrar em competição com os homens, e com frequência, aliás, com muito sucesso, em competição para conquistar mulheres.

 – Sim, mas – enfim! – dir-se-á, há ainda o pequeno problema do instrumento...

Em realidade, se fosse necessário tratar disso, seria preciso, primeiro, nesse momento, considerar a quantas anda a relação ao falo para aquela que tomou esse caminho. Pois ele pode permanecer o referente e, é claro, induzir uma imagem de si, uma representação de si fortemente viril, fortemente machista, para dizer a palavra, e perfeitamente explícita.

Mas pode haver também todos esses casos que conhecemos e que foram evocados, por exemplo, a propósito de Antoinette Fouques, em que se trata também de renunciar completamente a este referente, de pô-lo fora do campo, de não querê-lo mais, de não querer mais ouvir falar dele! Nesse momento, surge esta questão: mas o que é que uma tem a oferecer à outra, e reciprocamente? Qual é o objeto que está engajado nessa economia aí?

Seguindo Lacan, teríamos vontade de dizer que – chamemos essa jovem, como Regula Schindler lembrou muito bem, pelo nome que Freud lhe dá, das Mädchen, essa “garota”, poderíamos quase dizer essa “vadia”, Mädchen, no sentido em que é quase o equivalente do “cara” no feminino – o que ela ama em sua parceira é sua própria falta, a dela, e enquanto ela vem situá-la no outro, para quem talvez este seja o maior dos presentes. Porque, para uma mulher, não é justamente o problema da falta que ela gostaria de poder enfim assumir de uma maneira que não seja mais absolutamente fonte de tormentos, mas que a constitua mesmo como objeto de amor e de desejo? Enquanto que, na economia heterossexual ordinária, é antes essa falta que é vivida como falha de uma parte e da outra, enquanto ela é tanto frustração quanto privação. E se é possível vir situar no outro sua própria falta, enquanto ela é o que é amado, situado e localizado aí, talvez possamos entender como esse dom do que o sujeito ele mesmo não tem, constitui, é claro, o sacrifício supremo, o dom de amor supremo, que se trata mesmo de um negócio espiritual.

É uma operação bastante vizinha daquela que foi evocada no decorrer destas jornadas a propósito dos trovadores: como nesse regime feudal, em que, estando do lado do mestre, quando se tinha uma necessidade, era relativamente fácil se servir, chegavam pessoas que vinham justamente cantar a falta, Aquela que vem a faltar. E que os termos do cavalheirismo sejam igualmente retomados, a propósito deste caso, não pode de todo nos surpreender, não pode de todo nos espantar.

Nesta observação, e se eu devesse, de minha parte, acrescentar – o que fazer quando uma observação começa a desandar? – eu diria que faltam conceitos. Então fabricamo-los simplesmente para, nós mesmos, resolvermos a questão, ou então porque eles são efetivamente internos ao problema? Em todo caso, no que me concerne, há realmente dois que eu gostaria mesmo de assinalar para vocês, e que, creio, parecer-lhes-ão imediatamente aceitáveis, dignos de serem lembrados.

O primeiro, e que também foi evocado, é que uma criança, para uma mãe, é seu “bom-bocado”. Isso se diz desde sempre – desde que a psicanálise existe. É o que a faz passar do estatuto incerto e aleatório de mulher, já que constantemente dependente do comportamento e da atitude do parceiro, é o que a faz bascular desse estatuto aleatório a um estatuto fálico garantido de uma vez por todas. Uma vez que ela é mãe, é possível, acontece que, paradoxalmente, essa maternidade venha a interromper a atividade sexual do casal; como se agora ela não precisasse mais disso, isso não lhe importasse mais, ela teria aquilo de que precisava. E, então, a criança como esse fetiche, esse delicioso “pedacinho” que a eleva, portanto, a essa dignidade, a essa garantia, a essa certeza, adquirida de uma vez por todas, e que não lhe poderá mais ser retirada.

Devo dizer-lhes que, hoje, veem-se homens para quem a paternidade é estritamente equivalente. A única forma de aceder à virilidade é ter um filho, e é o filho que retroativamente dar-lhes-á músculo e tônus...

O problema, e esse é todo o esgarçamento tão frequente da relação das filhas com suas mães, é que, enquanto filhas, elas não são sempre tomadas nessa economia. Às vezes, sim, muito fortemente, e isso poderá dar em futuras “homossexuais” entre aspas, mas às vezes não! Pois bem, não, elas não são preenchidas, isso não funciona para elas como certificado de admissão, enquanto que o irmãozinho, ele, aah...!

Falou-se muito, e muito justamente, dos problemas de identificação pré-edipiana, e à mãe. Creio que se pode ver de que maneira esse primeiro falicismo, índice fálico recebido da mãe, e que vai eventualmente dar ao menino essa espécie de enfatuação que, abusivamente, o perseguirá pelo resto de seus dias, que esse primeiro índice fálico pode ser efetivamente determinante para o estatuto subjetivo da criança.

Nesse caso, de todo modo, parece que isso fez falta, que ela não encontrou em sua mãe o abrigo, o olhar, a ternura, as manifestações, as expressões do fato de que para ela, a mãe, essa filha era uma felicidade, uma alegria.

É o primeiro ponto que eu queria sublinhar.

O segundo ponto é ainda mais fácil e concerne, na relação edipiana da filha em relação ao pai, a uma reivindicação que pode permanecer aberta nesse ponto de escândalo: por que o pai permanece ele mesmo castrado, para não dar à sua filha, diretamente e sem outro intermediário, seu estatuto de mulher? Por quê? Ele o faz para o menino, e por que ele não é capaz, ele, de dar à sua filha um estatuto que não é mais aquele simplesmente, eu diria, de indivíduo falicamente marcado pela mãe eventualmente, mas um estatuto de mulher?

Eu me recordo do meu espanto a propósito de uma paciente de uns quarenta anos, perfeitamente versada em todos os problemas psicológicos, psiquiátricos e psicanalíticos, e que podia concluir sobre o fato que não! O que havia feito, seu pai, de não dormir com ela, afinal de contas?

Então vocês dizem “interdição do incesto”... o que isso quer dizer? É o quê? Vocês podem responder o que é? Dêem aí o nome de um impossível ou de um interdito ao mesmo tempo, um impossível que vem de outro lugar, não é aqui e agora que vou desenvolver isso para vocês, mas isso para tornar sensível que pode haver, da filha em direção ao pai, mantida aberta, uma ferida aberta – e que pode ser decidida por qual razão? Procurem ver qual a qualidade das pulsões que estão aí em causa... quem jamais poderá dizê-lo? – e que poderão ainda assim fazer com que ela jamais aceite que seja de um homem, com todos os inconvenientes, tudo que isso acarreta, que ela poderá esperar esse reconhecimento, esse estatuto. Porque, e eis um ponto que me parece merecer estar entre nós colocado em interrogação: “a anatomia”, será que “é o destino”? Interrogação que nos remete ao caso dessa jovem – corajosa. Vou dizer-lhes porque eu a acho corajosa; porque constantemente ela luta contra a depressão. Ela não tem outra solução senão a depressão, e ela briga, ela busca por qual meio ela poderia evitar cair, niederkommen, mas de verdade, à vera, em algo que poderia ser melancólico. Então, ela briga.

Mas será que é “a anatomia que faz o destino”, que faz o dela? Ou será essa nominação que vem marcar a criança no seu nascimento, e que vai colocá-la de forma até aqui determinada de maneira perfeitamente aleatória, é a loteria, 49% meninos, e 51% meninas, já que é assim, essa nominação prescritiva e injuntiva; quer dizer que é a nominação que dá de saída o estatuto fálico a dever assumir, a dever assegurar, seja como menino ou como menina. E pode-se perfeitamente pensar que a revolta contra o lugar atribuído (que essa revolta seja fundada ou não, esse não é o problema) venha a recusar essa nominação inscrita. Onde? Inscrita no Outro. É do Outro que ela vem, como o nome próprio e alguns outros significantes injuntivos, que nos marcam.

Então, hoje em dia, evidentemente, em que estamos em progresso, trata-se de se livrar de todos esses significantes injuntivos, de se livrar do nome próprio, como vocês viram, por uma lei... O nome próprio, é o que vem prescrever seus deveres, sua dívida. Para se livrar da dívida, não precisa ir ao banco, troca-se de nome, e é tudo! E ainda, fiz observar a esse propósito, essa famosa “matronimia”, é uma brincadeira! Não há matronimia, já que o problema é a escolha entre o nome do pai e o nome da mãe: se a criança vem se inscrever na linhagem paterna ou se ela vem se inscrever na linhagem do pai da mãe. Não se pode fazer piada com isso!

Por outro lado, vocês poderão chamar sua criança com um nome de fantasia... Fabius ou um outro nome que lhes parecerá agradável, simpático. Alívio para a criança de um de seus significantes injuntivos, de tudo o que ele arrasta com ele quando ela vem ao mundo, e que evidentemente é igualmente constitutivo de seu tônus, de sua subjetividade, e orientador de seu percurso. Porque, se não há ponto de partida, não há ponto de chegada, não há portanto linha estendida... E é evidente que, em nossos dias, esse tipo de significante de partida, menino ou menina, justamente pelo fato do convite que é feito à menina – é mesmo uma exigência, a paridade, o igualitarismo... – de poder servir a tudo, é claro que isso só terá uma importância cada vez mais secundária, relativa.

Eis aí como nos saímos dessa dificuldade dessa jovem, nós nos saímos dessa maneira. Se há, por parte dela, uma iniciativa que, talvez, poderia ser colocada no campo da perversão – eu não sei nada, teríamos que refletir sobre isso – seria a de se livrar do que se trata, não de sua anatomia, mas daquilo que essa prescrição inicial lhe destinava, queria para ela, e de dizer: “de verdade, a maternidade, muito pouco para mim! E é assim que eu poderei me sustentar falicamente”.

Então, por que a queda, ainda assim? Eu teria tendência em dizer que essa jovem, pelo fato talvez das especificidades atribuídas à mãe, que parecia ocupar todo o campo da feminilidade – não só por sua beleza, que estava preservada, uma idade relativamente jovem, já que ela acabava de ter mais uma criança, por seu temperamento afinal de contas viril, pela predileção que ela tinha por seus meninos, suas crianças macho – nesse campo, onde ela poderia ter encontrado seu lugar? E então essa espécie de voto organizador nela de se fazer reconhecer por um ideal feminino.

Conheci aqui, no atendimento de Saint-Anne, uma mulher que vinha ver-me, que deveria ter aproximadamente sessenta anos, e que tinha sido cafetina. Ela havia tido uma dúzia de mulheres que em Pigalle trabalhavam para ela. Não exclamem! Não estou revelando a vocês os bas-fonds de Paris, o que estou contando para vocês não tem nada de extraordinário; ela me dizia, com certo orgulho, que ela tinha uma mala em casa, uma grande mala, um cofre cheio de cartas de amor, “e como nunca um homem poderia ter recebido”...

O amor, o amor puro, pois o amor é mesmo o que é animado pela falta no outro, e quando se trata ainda por cima de mostrar, como ela o faz, que ela renuncia radicalmente ao que ela poderia esperar de uma satisfação vinda de um homem, que ela sacrifica, que ela não quer, por puro amor a uma dama, vê-se bem como aqui “a alma ama a alma”. E é certo que, nesse tipo de ligação, o amor, e o transitivismo eventualmente, toma um lugar muito maior que a realização sexual, que, aliás, no decorrer do tempo, como se verifica, pode até mesmo se transformar numa tarefa: ter que garanti-la acaba por se tornar até mesmo cansativo, uma vez que, nessa matéria, é o amor que prevalece.

Então, nenhum lugar do lado das mulheres, e eis que, quando ela se coloca do lado dos homens, em competição com o pai, e mostrando que afinal ela é bem mais homem que ele, porque ela, ela está pronta, pronta a todos os sacrifícios para realizar o seu amor, contrariamente à covardia dele, que afinal ela é realmente muito mais viril que ele, ela recebe o olhar de desaprovação que ele lhe lança, e ademais o olhar colérico da mulher que ela deseja... Ela não tem mais efetivamente lugar onde se colocar, ela não tem mais nada para sustentá-la, e bum, badabum! Ela vai para debaixo da ponte.

Parece-me que o que podemos trazer sobre essa questão é particularmente dizer: lamentamos! Eu espero que não magoemos muita gente, mas não há homossexualidade feminina, e afinal não é uma perversão. Então o que é?

Lacan nos dá essa pequena indicação, que evidentemente também não vai agradar, pois prefere-se sem dúvida ser perverso ao que ele evocou. Ele diz isso: esse tipo de “homossexualidade” é afinal uma histeria, uma histeria bem-sucedida.

Por quê? Porque, se a histeria é organizada por essa demanda em que, eu diria, a marca fálica é realizada, não somente por sua insistência, mas pela hiância, pela fenda que ela vem abrir naquela que emite a demanda – é, se posso dizer, a virilidade da fenda – é dada uma saída possível dessa histeria de vir aí responder, e da parte de uma daquelas que justamente estão expostas a essa demanda, por esse programa: “eu, eu vou poder plenamente, plenamente te satisfazer, quer dizer, dar a essa demanda, dar a essa hiância um estatuto que autorizará, não mais somente a queixa, o sofrimento, a reivindicação, mas igualmente o gozo”.

Faço vocês observarem o destino de Anna O.. Anna O., era a demanda sem parar! A grande goela aberta, e vocês sabem como ela se curou, Anna O.? De modo algum pela intervenção de Breuer, e aí mais uma vez uma criança nasceu em sua família, é sempre a mesma história! Ela se curou transformando-se na grande provedora, decidida a responder a todas as bocas abertas, a grande alimentadora, o seio destinado a suprir todos os sofrimentos que essas demandas manifestam. Não penso que Berta Pappenheim, com seu nome bem significativo (pois há também a palavra “papa” em seu nome, a papa que se dá aos bebês pequenos), tenha alguma vez ido buscar do lado de um homem a satisfação narcísica que ela podia experimentar ao vir assim nutrir todas essas bocas esfomeadas, e que ela esperava de pé firme o selo postal que viria comemorá-la – como foi feito pelos correios austríacos.

Esses apoios que tomamos na teoria freudiana e lacaniana, e aí vemos como Lacan responde e persegue Freud, permitem-nos situar esse tipo de questões de um modo que, de minha parte, eu me permito achar, até eticamente, mais correto. Espero que esse aspecto seja retido, que não nos julguem, por adiantar tudo isso, incorretos, “politicamente incorretos”, mas que se reconheça que isso, uma vez mais, apenas concerne a esse desespero do sujeito exposto à castração e às mil e umas maneiras pelas quais ele tenta encontrar, todos os caminhos que ele tenta inventar para colocar, destrinchar o tipo de remédio que, nesse caso, deveria ser satisfatório para todos. Não somente a satisfação egoísta do cara que pega no sono depois do uso, é muito mais oblativo, mais generoso, muito mais atencioso – enfim, apaixonado!

                                                                                                 Tradução: Sylvia Notrica Morard

                                                                                           Revisão: Silvia Venturini Costa

 

[1] Conclusão das Jornadas de estudo da AFI, março de 2001, Paris.

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