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MERCENÁRIOS E MARGINAIS

MELMAN Charles
Date publication : 17/04/2019

 

Mercenários[1] e marginais

 

A questão que se colocava outrora era de saber qual formação era a menos ruim para se tornar psicanalista: médica ou filosófica?

A médica era julgada falha pelo fato de substituir a escuta pela observação e, sobretudo, por positivar o falo tomado por guardião da vida e não, uma vez negativado, do desejo.

A filosofia se perdia pelo fato de ser guiada pelo sentido que, fosse ele o bom, negligenciaria por demais o não-senso, fundador de nossa humanidade.

Quanto ao médico letrado, aquele capaz de reter a primazia do significante sobre o signo, há muito tempo ele tinha desaparecido.

Restava o linguista, genebrês ou americano, que quase nunca se deu ao trabalho, tal Jakobson, de citar Lacan ou de se empenhar numa discussão pública.

E então? Se não a deformação do neurótico por suas pequenas infelicidades, o que poderia levar longe se a neurose não o impedisse precisamente disso. O que define o neurótico é a subjetividade infeliz: o mestre impede o pobrezinho de desejar como ele queria. Álibi para se viver como o Um magnífico que ele teria podido ser se o Um no poder não refreasse um potencial que nunca teria vindo à luz.

A formação psicanalítica sempre tem sido, como aquela da Igreja, grande provedora de marginais. Maneira de privilegiar o anal [anal] sobre a fragmentação [lyse[2]], quebra medíocre e fácil de fazer, o que não a impede de ser verdadeira.

 

[1] Morticole : Pejorativo e familiar [alusão ao romance satírico de Léon Daudet, Les Morticoles]Médico que é reputado fazer morrer os doentes antes que curá-los ; mandarim da Faculdade caracterizado pelo amor ao dinheiro, por títulos honoríficos.

[2] No original, lyse, tem o sentido de “destruição por fragmentação de uma molécula orgânica de uma célula ou de um tecido, sob a influência de agentes físicos ou químicos”.

 

Traduction en portugais par Letícia Fonsêca

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