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MELMAN Charles
Date publication : 29/03/2019

 

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No burgo (na pequena cidade) dos Yvelines onde acontecia-me de passar os fins de semana, estava aberta uma mercearia cuja especialidade era que seus produtos provinham exclusivamente de uma zona situada a menos de 50 km. Podia-se assim consumir e defecar entre si. O estrangeiro era mantido fora da fronteira e um forte sentimento comunitarista devia reunir esses novos cidadãos. Epa! Paris, a cosmopolita! Parisienses cabeças de bagres, parisienses cabeça de bezerro. A rodovia nacional que conduzia à capital era bloqueada nos giradouros e para entrar era preciso vestir um colete amarelo testemunhando sua submissão às novas normas. Todo mundo era igual, homens mulheres cães e porcos e fazia-se alegres piqueniques cada um com a mesma cabeça[1] e a mesma fatia vegan.

Era o chefe que nos lembrava que nós éramos autônomos e tínhamos o dever de pensar como quisesse. Como eu queria? Eu não me lembro mais, ah!, sim, como os outros é claro, agora que somos independentes. O que nos faltava era uma bandeira, quando alguém sugeriu que fosse branca, virgem, sem nada – a liberdade, ora! Mas um outro lembrou que aquela era da reedição e que se outros escolhessem a mesma, não se seria mais autônomo. O chefe encontrou então a palavra que precisava: vamos organizar uma comissão, disse ele, para estudar a questão. Grosse[2] ou pequena, ele não disse.

Ch. Melman

20 de março 2019

P.S. A história da mercearia é evidentemente autêntica e o resto apenas real.

 

[1] No original tronche : palavra popular para dizer cara, cabeça; que faz jogo de palavras com tranche: fatia, aqui no sentido de tribo.

[2] La grosse commission alude a fazer coco.

 

Traduction en portugais par Letícia Fonsêca

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