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Uma Vorstellung antecipadora de um delírio e sua realização transferencial?

Eduardo de Carvalho Rocha
Date publication : 08/03/2019

 

O presente texto foi apresentado no Encontro do Espaço-Oficina- Associação Psicanalítica com Angela Jesuino em novembro, e fez parte da Jornada anual de trabalhos sobre o Seminário de Lacan As estruturas freudianas da psicose, trabalhado ao longo do ano de 2018.

 

 

Uma Vorstellung antecipadora de um delírio e sua realização transferencial?

                                                                                                                       Eduardo de Carvalho Rocha

                                                               

Ao longo do trabalho de leitura e discussão sobre esse seminário, algumas questões foram se decantando em mim, sendo que uma teve uma forte insistência desde o início. Trata-se de um fenômeno ocorrido a Schreber e que teve tanto dele mesmo, como de Freud e Lacan, um tratamento particular. Schreber em seu livro de memórias relata a maneira como ele entrou no que chamou de sua 2ª doença. Achava-se naquele momento muito tenso e preocupado com as exigências da função a que tinha sido alçado, aonde tinha que lidar com colegas muito mais velhos, de uma outra geração, e mais, na função de presidi-los. Ainda assim relata que o trabalho estava indo melhor, após um período inicial mais difícil. Também nos confia que em sua vida pesava o fato de não ter filhos, de sua mulher ter tido alguns abortos ao longo dos últimos anos. É com essa moldura que ele se refere ao fato de ter tido uma Vorstellung (uma representação) que lhe veio num estado meio acordado, meio dormindo ainda, numa manhã, e nela algo se apresentou “de como seria belo ser uma mulher no coito”. Ideia ou imagem que ele logo repeliu e que tratou como algo totalmente estranho ao seu modo de vida, aos seus valores, e sequer próximo a fantasias, sendo que posteriormente a partir de sua restituição delirante aquela veio a ser compreendida como o anúncio do que se pretendia fazer com ele, isto é, sua Entmanung, sua eviração ou emasculação.

Freud lê nessa representação a manifestação de uma tendência homossexual recalcada e reativada pela reaproximação com o Dr Flechsig, o médico que tinha lhe tratado de forma tão eficiente por ocasião de sua primeira doença, e do qual sua mulher se tornara grande admiradora. Freud faz algo surpreendente em relação ao que se podia dizer da função de um médico, ele liga Flechsig à causa da psicose de Schreber, sendo que o próprio já havia feito isso na carta que introduz seu livro. Como podemos ver, a inteligência do significante já fazia seu caminho desde então, ainda que de forma bruta. Lacan nos deu uma chave para reconhecê-la.

Podemos dizer, seguindo os próprios termos de que Lacan se serve no inicio do seminário, que essa Vorstellung estaria mais do lado do reaparecimento intelectual de uma denegação, portanto mais próximo de uma neurose, do que de uma alucinação, que indicaria o reaparecimento no real de algo denegado pelo sujeito. A frase em si neste momento não parece ter a forma de um fenômeno elementar. É só depois, com tudo que se segue a ela que podemos apreendê-la de outra forma. Nosso desafio é considerar que essa frase não é a escrita de uma fantasia, e sim de um delírio. E os seus elementos portam isso de que modo?

Um modo de abordar esse fenômeno, e em particular se fosse com um doente numa entrevista, seria tentar examinar os pontos que tal frase poderia suscitar enquanto associação, ou mesmo interpretações. Lacan sublinha que para um psicótico, as palavras têm um peso um si mesmas, se trata de uma significação que só remete a ela própria, significando algo de inefável, algo que poderíamos aproximar de uma significação plena, no sentido de que ela poderia se abrir para um enigma. O fato é que o que se sucede não é propriamente da ordem de uma abertura a um enigma senso estrito, e sim de uma parada no discurso com o aparecimento de sintomas hipocondríacos e uma angústia de morte, e a seguir a própria dissolução do seu mundo. Ainda que Schreber tenha comentado e reconhecido a estranheza da frase-imagem, o que lhe acontece a seguir é a perplexidade. Quer dizer, ali onde nessa frase poderia se abrir para uma dimensão propriamente fantasmática que indicaria algo da ordem da divisão do sujeito em relação a sua posição sexuada, o que sobrevém é a perplexidade, a dissolução de seu mundo e a presença de um outro que fala pelas vozes alucinadas.

Quando Lacan aborda essa frase ele inicialmente sublinha o que ela tem de um certo caráter pré-consciente. “Esse seria belo... tem o caráter de pensamento sedutor”. E a seguir formula esta questão: “Que relação há entre a emergência no eu- e de uma forma, sublinho, não conflituosa- do pensamento de que seria belo ser uma mulher sendo copulada, com a concepção em que o delírio chegado ao seu grau de acabamento se desenvolverá em toda a sua força, ou seja, que o homem deve ser a mulher permanente de Deus?” (p.77). E continua... “Cabe, sem dúvida alguma, aproximar esses dois termos- a aparição primeira deste pensamento que atravessou o espirito de Schreber, então aparentemente são, e o estado terminal do delírio... O pensamento do início nos parece legitimamente como a entrevisão do tema final”. “ A questão que se coloca é a de saber se nos encontramos diante de um outro mecanismo propriamente imaginário, aquele que vai desta primeira entrevisão de uma identificação dele mesmo, de uma primeira captura dele mesmo numa imagem feminina, até  o desabrochar do mundo verdadeiramente idêntico a esta imaginação de identificação feminina” (versão da Ali, p111-112).

Depois de se perguntar sobre “esse outro mecanismo propriamente imaginário”, Lacan segue o seminário dissecando os termos do discurso de Schreber, e não volta a se referir a esse “mecanismo imaginário” diretamente, mas ao se perguntar sobre o que seria o fenômeno psicótico, responde propondo ser “a emergência na realidade de uma significação enorme que não se parece com nada- na medida em que não se pode ligá-la a nada, já que ela jamais entrou no sistema da simbolização- mas que pode ameaçar todo o edifício”. Aqui encontro uma indicação sobre essa frase: emergência de uma significação que não se parece com nada. Schreber em seu testemunho reconhece esse valor. E Lacan assinala que Schreber não integrou em sua existência “a forma feminina”. Por essa via, a Vorstellung do “seria belo...” é uma manifestação imaginária de algo foracluído, o feminino. E o feminino em sua significação simbólica essencial, diz Lacan, ao nível da procriação. Em outro ponto, quando está distinguindo o desejo na neurose e na psicose, Lacan retoma Freud e lê que enquanto o recalcado reaparece na neurose no simbólico, nas psicoses reaparece em “outro lugar, no imaginário, sem máscara” (p.124, ed.bras). E logo depois ele é categórico ao dizer que “para Schreber como para os homossexuais, pode-se esquematizar a transformação imaginária do impulso homossexual em um delírio que faz do sujeito a mulher de Deus, o receptáculo do bom querer e das boas maneiras divinas. Pode ser convincente, mas a psicose não é isto. Uma psicose não é o desenvolvimento de uma relação imaginária, fantasmática, com o mundo exterior”.

Vemos assim que Lacan mantém a presença do imaginário, mas claramente distingue a função desse imaginário na neurose e na psicose. O que persigo é a possibilidade de nos darmos conta desse imaginário psicótico nesta frase/imaginação, ainda antes da psicose desencadeada, em seus próprios termos de enunciação. Ao final do seminário Lacan se refere à inteligência do significante. Pois bem, essa frase/imaginação, quem a diz? E em que momento de sua vida? Lacan diz que sua hipótese de trabalho é procurar o que houve no centro da experiência de Schreber, e que ele, Schreber, se sente “levado pela espuma provocada por esse significante”, e que organiza todos os fenômenos. Esse mesmo ponto pode ser reencontrado quando Lacan nos pergunta sobre o que faria com que na psicose o sujeito seja levado a constituir-se naquilo que chamou de “alusão imaginária”. Teria essa frase o estatuto de uma “alusão imaginária”? Ou seja, essa mulher aludida no fenômeno, assim como numa alucinação, diria respeito a algo do sujeito que se encontraria recalcado, ou mesmo foracluído. Aliás este foi o caminho que Freud tomou. Só que essa alusão não tem um poder resolutivo numa cura, lembra Lacan, apesar de poder ser considerada um avanço na psiquiatria.

No desenrolar das lições seguintes Lacan vai tratar do simbólico como lugar fundamental para a constituição do sujeito, e em especial da função do Édipo. É o simbólico que dá a forma em que se insere o sujeito, “no nível de seu ser”, e é a partir do significante que o sujeito se reconhece como sendo isto ou aquilo. E então diz algo enigmático, “há, contudo, uma coisa que escapa à trama simbólica, é a procriação- que um ser nasça de outro ser” (p.205).  “No simbólico, nada explica a criação”. “A questão de saber o que liga dois seres no aparecimento da vida não se põe para o sujeito senão a partir de quando ele está no simbólico, realizado como homem ou como mulher, mas na medida em que um acidente o impeça de aceder até aí”. Esta frase tem toda ressonância com o que encontramos em Schreber, em particular esse ponto de acidente em que algo o impede de aceder até aí. E Lacan esclarece que se fez considerações sobre a histeria ao longo do seminário (onde o sujeito também se pergunta sobre seu ser sexuado, sou homem, sou mulher?), foi para tentar saber em que se distingue dela o mecanismo da psicose, em especial o de Schreber “em que se projeta também a questão da procriação, da procriação feminina bem particularmente”. (p.206). Sendo que a histeria é uma questão centrada em torno de um significante que permanece enigmático quanto à sua significação. “A questão da morte, a do nascimento, não têm solução no significante.” “E nas psicoses, qual é a função das relações do sujeito com o significante nas psicoses?”, insiste ele à pag. 217.

Retomando o chamado período pré-psicótico de Schreber, Lacan ressalta que tudo ali se parece muito com uma sintomatologia neurótica. Ele está atormentado com estranhos pressentimentos, e eis que lhe vem bruscamente essa imagem. Lacan pergunta sobre como situar o limite entre esse momento de confusão e aquele em que seu delírio terminou por construir que ele era efetivamente uma mulher? E encaminha sua resposta dizendo que no fundo da psicose, trata-se de um impasse, de uma perplexidade concernente ao significante. Tudo se passa como se o sujeito reagisse a isso com uma tentativa de restituição, de compensação”. “O que é que....?, eu não sei nada disso”. E na falta do Outro, desse lugar de onde esse significante viria a tentar responder (como a histérica com seu sintoma, ou o obsessivo), é o outro que é afirmado, na dimensão imaginária. Lacan considera que essa emergência no nível do outro dessa sintomatologia psicótica, como por exemplo no automatismo mental, pode adquirir aspecto de uma implicância do significante, como em Schreber é tão manifesta nos jogos que lhe são propostos. Observo que em alguns psicóticos sua fenomenologia se cristaliza nesse ponto, e nem sempre se desdobra num delírio propriamente acabado. Sofre-se dessa implicância do significante com mais ou menos força de tempos em tempos.

 Nesta questão que estou perseguindo, alguns outros elementos se somam agora: a frase emergida seria essa resposta nesse nível do entre-eu, do imaginário, da questão concernente ao significante que não pode ser acolhida? Assim como Porca seria a resposta alusiva a “eu venho do salsicheiro”, “que belo seria ser uma mulher no coito”, seria a resposta alusiva a “O que é um pai?”?

Na lição de 18 de abril Lacan traz considerações que me pareceram instigantes. Ele pergunta: Quais são os modos de causalidade que o sujeito apreende numa captura imaginária? Se é verdade que a relação do desejo é concebida à primeira vista como imaginária, é no jogo significante e sua insistência própria, que se pode evitar certas confusões e impasses. Portanto, precisamos avançar na compreensão do jogo significante, e no que seria esse impasse do sujeito frente a um certo significante, para daí entender melhor o verdadeiro sentido dessa frase alusiva em Schreber, isto é, o que está em causa aí.  Mais precisamente, supondo que nos psicóticos se trataria das consequências da falta essencial de um significante, e que por isso o que há é um buraco, uma falta no nível do significante, essa frase alusiva viria no lugar dessa falta.  Quando se refere aos neuróticos, Lacan diz que os neuróticos se colocaram questões, e adoecem por isso. Quanto aos psicóticos, isso não seria tão certo, e mesmo pode ser que a resposta lhes venha antes da questão. Não seria o caso de supor que essa frase/imagem é uma resposta antes mesmo que a questão pudesse ser posta?

Lacan distingue duas formas de presença imaginária na dialética do sujeito com o significante pai, que é o que lhe parece estar em causa em Schreber, uma que ele reporta à rivalidade imaginária, e outra a da captura imaginária. “Nesta a imagem adquire em si mesma e logo de saída a função sexualizada, sem ter necessidade de intermediário, sem necessidade de identificação com a mãe ou qualquer outro. Aqui a relação imaginária é desumanizante” (p.233, ed. brs). Tudo que se seguiu a aquela frase/imagem tem indícios dessa imagem desumanizante, se acompanhamos os efeitos que se seguiram da ordem propriamente da morte do sujeito. Lacan é peremptório: “a alienação aqui é radical, ela está ligada a um significado aniquilante, como um certo modo de relação rivalitária com o pai, mas com um aniquilamento do significante. Essa verdadeira despossessão primitiva do significante, será preciso que o sujeito carregue seu peso e assuma sua compensação, longamente, na vida....” (pag.233). Não estamos no campo da rivalidade imaginária com o pai por onde se faz a integração simbólica no Édipo, nem num exercício simbólico de conduta como meio de realização imaginária do pai (como na neurose, e em particular na couvade). No caso trata-se, diz Lacan, da função real da geração (p.242). Aqui é a função real do pai na geração que vemos surgir sob uma forma imaginária, quer seja nas figuras alucinadas dos homenzinhos que são gerados, quer por essa imagem antecipatória de uma geração- “o seria belo ser uma mulher no coito”.

 Mas o que faz com que Schreber não reconheça nessa frase/imagem algo que seja seu? Lacan se pergunta: “Onde, no significante, está a pessoa? Como um discurso se sustenta de pé? Até que ponto um discurso que parece pessoal pode, somente no plano significante, portar muitos traços de impersonalização para que o sujeito não o reconheça como seu?” (p 304, ed br).

O desenvolvimento que Lacan faz nas lições finais alcança a operação da metáfora e sua função basteadora na cadeia significante, em particular, o significante pai, e tomando os exemplos do “Tú és que aquele que me seguirás por toda parte” e “Tú és aquele que me seguirá”, interroga o que acontece quando um significante que dá peso à frase é ouvido mas nada no sujeito pode responder a ele. E recorre aos exemplos das frases interrompidas de Schreber para apontar os efeitos deste fato, isto é, “(elas) se suspendem precisamente no ponto em que vai surgir um significante que continua sendo problemático, carregado de uma significação certa, mas não se sabe qual. Significação derrisória, que indica a hiância, o buraco, em que nada de significante pode responder no sujeito” (p 319, ed bras). Esse é um fenômeno que Lacan explora para indicar a presença do significante, de seu jogo propriamente dito, no delírio de Schreber. Mas aí se trata de um momento propriamente de reconstrução de seu mundo após o desabamento inicial. O que estou indagando é sobre o estatuto daquela frase inicial, onde algo desse buraco já estaria aí de certo modo abordado, ou mesmo anunciado, e o que ocorre não é propriamente a suspensão do sujeito, e mesmo seu esfacelamento, e sim a emergência dessa Vorstellung como que a representar a construção de uma resposta pela via do significante a essa  exigência. Não haveria aí como que uma cifragem por uma imagem do que seria o caminho do significante, sua anunciação? E nisso fica ainda esta pergunta: por que, pela lei própria do significante, o caminho a seguir para responder, ou tentar responder, a essa exigência de um significante que viria a ordenar a cadeia, marcar uma escansão, efetivar um corte e também uma transmissão de sentido, por que esse caminho seria pela via de uma feminização? O que na inteligência do significante, como nos diz Lacan, quer dizer esse caminho de feminização?

 A função do significante, Lacan nos lembra, “ele polariza, engancha, agrupa em feixe as significações”. Portanto é nesse buraco da falta de um significante primordial, que algo tributário da própria função do significante, se apresenta. Na falta de um Um do pai, é uma Uma que se representa como alternativa significante. Ali neste ponto em que na relação com o Outro algo interpela o sujeito sobre a função de ser pai, o que “se” antecipa imaginariamente é um “ser mãe”, “ser uma mulher”. E por que o apelo ao belo interposto nesta frase?

Czermak, retomando Lacan, nos indica o belo na clínica da melancolia, como sendo a última barreira à morte do sujeito. O apelo à beleza já nos indicaria aí a antecipação do desastre subjetivo subsequente.  Na lição de 20 de junho Lacan lembra que naquilo que possa querer dizer “ser pai”, o fato de copular uma mulher “jamais terminará por constituir a noção do que é “ser pai”. E continua ... “o sujeito pode muito bem saber que copular está realmente na origem de procriar, mas a função de procriar enquanto significante é outra coisa” (p.330 ed bras). Então Lacan chega ao ponto em que me parece esclarecer essa Vorstellung primeira:

 “O significante ser pai é o que constitui a estrada principal entre as relações sexuais com uma mulher. Se a estrada principal não existe, a gente se vê diante de um certo número de pequenos caminhos elementares, copular e em seguida a gravidez de uma mulher. O presidente Schreber está falto, segundo o que se sabe, deste significante fundamental que se chama ser pai. Por isso é preciso que ele cometa uma espécie de erro, que ele se embrulhe, até pensar estar ele próprio prenhe como uma mulher. Foi preciso que ele próprio se imaginasse mulher, e realizar numa gravidez a segunda parte do caminho necessário para que, adicionando-se um ao outro, a função ser pai seja realizada.”(pag.330, ed bras). É por isso que Lacan aproxima o delírio de Schreber com a couvade, na medida em que realiza imaginariamente uma função simbólica. Aproxima, pois sabemos que aqui se trata de uma realização no real do corpo, como Schreber testemunhou.

E assim como Lacan nos legou essa analogia entre os letreiros que aparecem ali onde não há estradas, aproximando as alucinações verbais dessa função, proponho tomarmos essa frase/Vorstellung inicial como um letreiro, como a indicação de caminho que a corrente contínua do significante toma quando os pontos de enganchamentos são saltados.

Mas, ainda tem algo mais a considerar. Acontece que nesse momento em que essa Vorstellung se apresentou, o sujeito ainda não tinha mergulhado em seu despedaçamento, e não tinha sofrido o “assassinato de alma”, sinal de entrada na psicose. Ali, digamos, ele se encontrava com um letreiro à beira do caminho, mas não tinha se perdido no abismo que se abriu depois. Podemos reconhecer que ali algo do campo do Outro faz apelo de um significante essencial que não pode ser acolhido, mas a psicose não está propriamente desencadeada, e sim anunciada, mostrada. Ele está à beira de transpor essa fronteira, que uma vez transposta, encontra no automatismo mental a companhia de sua humanização. Mas Lacan faz questão de nos chamar atenção para uma sequência que só corrobora a importância da transferência nas psicoses. Ele lembra que Schreber chegara para uma consulta neste momento de angústia e de perturbação, e que neste dia Flechsig lhe diz: “Fizeram-se muitos progressos em psiquiatria, desde a última vez, e vou colocá-lo num desses soninhos que vai ser bem fecundo”. A partir daí Schreber não dorme mais, tenta se enforcar e sua psicose se deslancha. “Talvez fosse justamente isso a coisa que não se devia dizer”, sublinha Lacan. Por que? Que relação há entre essa frase de Flechsig, a Vorstellung que já havia se apresentado a Schreber como anúncio de uma solução, e o “assassinato de almas”?

Poderíamos ler aí a reduplicação na transferência, daquilo que se representou imaginariamente, mas dessa vez com a força de uma injunção real, isto é, fecundá-lo como solução real? Bem é uma questão a que cheguei seguindo essa frase/Vorstellung de Schreber e o comovente trabalho de Lacan para nos ensinar um pouco mais sobre a estrutura da fala e da palavra, e, como sempre, confluindo para esse terreno transferencial, tela que pode nos ajudar a melhor nos situarmos em relação ao lugar ao qual somos tomados num tratamento. Espero que essas minhas considerações sirvam de introdução para os trabalhos de Marta Macedo e Angela Jesuino, que certamente partirão ou chegarão, ao laço transferencial como lugar onde se escreve o percurso de uma existência como sujeito falante.

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