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Clinique de l'identité (version brésilienne)

THIBIERGE Stéphane
Date publication : 27/02/2019

 

Apresentação e tradução Maria Lucia de Queiroz

Stéphane Thibierge, na conclusão de seu livro Clinique de l’identité,[1] faz uma retomada da teorização lacaniana sobre a possível e necessária articulação do individual e coletivo no laço social e de seus efeitos sobre a vida na Cidade, destacando o que é da ordem da responsabilidade singular, mas que obriga simultaneamente a uma passagem pelo outro, para além da perspectiva do Ideal, tal como foi teorizado por Freud. O alcance político desse texto torna-o uma leitura (quase) obrigatória para as discussões sobre o “mal-estar na civilização” atual.

 

“Lacan tentou uma articulação da psicologia das massas, ou dos grupos, que permite inscrever também a função do sujeito tal como a psicanálise a concebe, de uma maneira nova, isto é, distinta de tudo o que procede do Eu e de suas condições. Tratava-se de poder articular a questão do sujeito sem que ela seja desconhecida na ilusão de um grupo, de um coletivo ou de uma síntese perceptiva formando totalidade. Observemos que, em Freud, essa ilusão é lucidamente explicada, mas sem que se distinga exatamente como eventualmente poderia dispensar o que constitui o seu princípio – o Ideal do Eu.

Lacan realizou essa tentativa, ou pelo menos colocou os seus princípios, num artigo publicado exatamente no fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945 e partindo de um problema de lógica que um matemático, seu amigo, lhe tinha submetido. As condições do problema – o diretor de uma prisão colocando à prova três condenados – situam aqui, de saída, a relação entre o sujeito e o grupo nos termos mais clássicos da Massenpsychologie: um mestre, um grupo formado apenas pela vontade do mestre e uma competição que este propõe, da qual, em princípio, só um detento deve sair vencedor. Lacan vai retomar toda essa problemática, mas remanejando-a de uma maneira radical: ele vê aí a oportunidade de indicar o que deveria e poderia ser, diferentemente, uma lógica coletiva corretamente colocada.

O diretor de uma prisão convoca “três detentos de sua escolha, para anunciar-lhes que eles vão, se estiverem de acordo, fazer uma prova que definirá a libertação do primeiro que a resolver. Cinco discos lhes são então apresentados: três brancos e dois pretos. Em seguida, um dos discos é colocado nas costas de cada um dos detentos, sem que ele possa ver qual é a cor do mesmo. O espaço onde os três ficam confinados não comporta nenhuma espécie de superfície refletora: “Ausência aqui de qualquer meio de se olhar”, escreve Lacan. Os efeitos próprios ao registro imaginário e à estrutura especular são, portanto, neutralizados tanto quanto possível. E a lógica que vai operar não se jogará a dois termos, mas a três, o que tem evidentemente sua importância.

Isso faz com que cada um fique à vontade para observar em silencio qual o disco que cada um dos dois outros porta. O primeiro – indica o diretor – a poder concluir a cor do disco que ele mesmo carrega nas costas poderá beneficiar-se da medida liberatória disponível, desde que sua resposta seja fundada logicamente e não somente sobre uma probabilidade. “Aceita essa proposta, escreve Lacan, os três prisioneiros passam a portar um disco branco, deixando-se de lado os dois discos pretos.

Não é necessário aqui retomar a sequência desse artigo em detalhe, desejamos somente destacar o que concerne mais precisamente à Psicologia das Massas, através do grupo dos três prisioneiros e a maneira pela qual Lacan rearticula essa questão ligando-a estreitamente à do sujeito e da identidade. Notaremos que ele reformula inteiramente a problemática e isso de uma maneira que interessa diretamente aos clínicos, certamente, mas também, além disso, às funções do individual e do coletivo na Cidade.

Lacan começa evocando o que ele chama a “solução perfeita” do problema. Ela se apresenta como segue:

“Após se terem olhado entre si um certo tempo, os três sujeitos dão juntos alguns passos que os levam frontalmente à porta de saída. Separadamente, cada um fornece então uma resposta semelhante que se exprime assim:

“Eu sou um branco e eis como eu o sei. Se meus companheiros fossem brancos, pensei que, se eu fosse um preto, cada um deles teria podido inferir o seguinte: Se eu fosse um preto também, o outro – devendo aí reconhecer imediatamente que ele era um branco, teria saído logo, portanto, eu não sou um preto. E todos dois sairiam juntos, convencidos de serem brancos. Se eles não fizeram nada disso, é porque eu era um branco, como eles. Assim, eu fui para a porta, para dar conhecimento de minha conclusão”.

“foi assim que todos os três saíram simultaneamente, tendo as mesmas razões para concluir”.

O que parece importante sublinhar, no caso, é que essa solução “perfeita” é precisamente a que a lógica clássica recusaria como um sofisma, pelo fato de que a simultaneidade dos três momentos conclusivos e a presença dos três prisioneiros simultaneamente no mesmo ponto do espaço determinado por sua resposta, isto é, exatamente no ponto de saída, é impossível.

É isso o que Lacan vai se empenhar em recusar, mostrando que a necessidade lógica aqui em jogo não é somente da ordem do olhar e do espaço, do visível instantaneamente, mas que ela inclui necessariamente uma escansão temporal que não é espacializável e que somente por ela pode-se realizar a lógica capaz de produzir um sujeito: esse sujeito é idêntico, nas condições de sua verdade, não podendo produzir-se senão a partir de suas relações com os outros, com cada um dos dois precisamente.

A maneira pela qual Lacan liga aqui a questão do coletivo - o que Freud chamava Psicologia das Massas – e a do sujeito, chama também a atenção para o contexto onde ela é apresentada. Na realidade, Lacan a propõe nos termos de uma ficção cujas “imagens sinistras”, escreve ele, “respondem a alguma atualidade de nosso tempo”. Em outras palavras, é em correlação claramente indicada com o laço social concentracionário e paranoico do homem contemporâneo, efetivamente realizado pelo nazismo entre 1933 e 1945, que Lacan desenvolve os elementos de uma lógica do sujeito onde o que está em jogo é verdadeiramente inédito: como fundar a possibilidade de uma responsabilidade singular, que não somente leve em conta a pertinência a um grupo, mas ainda integre necessariamente essa pertinência e as relações que a definem no processo por onde ela se decide?

A resposta clássica, a que Freud analisa, passa pelo que ele chama Ideal do Eu – com a consequência que comporta esse ideal, como todo ideal: de fechar necessariamente o que se encontra engajado a partir de uma responsabilidade e de uma decisão individuais, de uma verdade do sujeito. Essa verdade é, com efeito, regularmente colmatada em nossa psicologia ordinária pela função do ideal. É para isso que nós evoluímos quase sistematicamente na Psicologia das Massas.

A lógica que Lacan indica aqui é outra. O enunciado do problema estabelece que cada prisioneiro porte nas costas um disco branco: o que, além da identidade de condição que isso indica, obriga cada um a consagrar “um certo tempo” a um raciocínio que lhe possibilite encontrar a solução lógica. A necessidade material  desse tempo mostra que nós temos que lidar com uma estrutura impossível de ser reduzida a uma espacialidade instantânea. O único caso em que essa redução seria possível seria aquele em que nós teríamos a seguinte distribuição: dois discos negros e um disco branco. Então, o prisioneiro do disco branco, sabendo que só havia dois discos negros e vendo-os nas costas dos outros dois prisioneiros, saberia imediatamente que ele era branco e sairia sem hesitação. Mas não é esse o caso do enunciado do problema, que obriga a deixar as necessidades de uma lógica da espacialidade e do instante. O que o torna interessante e permite a Lacan fazer dele o suporte de uma lógica do sujeito que se descobre como necessariamente articulado ao outro, é o fato de que os três prisioneiros portam, cada um, um disco branco. É isso que vai obrigar cada sujeito a passar por uma interrogação sobre o que o outro –cada um dos outros dois respectivamente- pode saber, do lugar onde ele se encontra, para poder ele mesmo concluir eventualmente, isto é, decidir qual deve ser sua cor e agir, dirigindo-se para a saída. Notaremos, de passagem, a equivocidade fecunda que comporta “como deve ser” (“ce qui‘il doit en être”) em francês, pois isso pode se entender tanto como uma constatação quanto como uma decisão ou um ato. De fato, aqui trata-se de um e de outro conjuntamente: o sujeito (cada um dos três tomado isoladamente) não pode, com efeito, deduzir as condições reais do que seria seu “ser” de nenhum universal nem de nenhum ideal – de nenhuma objetividade assegurada ou garantida – mas de uma decisão a ser tomada no tempo de uma passagem necessária pelo outro, onde o ato vem aqui no lugar de uma falta-a-ser que constitui precisamente o real do sujeito.

Apreende-se assim porque o que dá a essa lógica as condições de sua verdade subjetiva, é que os prisioneiros são três: se eles fossem dois – lógica dual – não haveria nenhum meio para cada um de encontrar sua cor a partir de uma reflexão sobre o saber do outro. Mas se eles são três, isso é possível, como se pode mostra-lo de forma relativamente simples. Se nós designamos por A, B e C cada um dos sujeitos, A verá, portanto, diante de si, B branco e C branco. E começará a raciocinar: “consideremos a hipótese de que eu seja negro. Então B veria: C branco + A negro. E diria: já que A é negro (hipótese de partida de A), então se C que nos vê, A e a mim, vendo que eu sou negro, C deveria sair de imediato e sem hesitar, pois ele veria dois discos negros”.

Sem prosseguir com essa lógica, nós vemos que ela supõe três termos representando, cada um, um sujeito; a necessidade de um tempo de articulação lógica passando por um saber que é suposto ao outro e a decisão, necessária em um dado momento para A (ou igualmente cada um dos outros dois) apressar-se para concluir: porque a identidade de condição, o traço comum dos três sujeitos é não poder agir (encontrar a saída), adivinhando sua própria cor, senão a partir de uma cogitação que teria de passar necessariamente pela suposição do saber interrogado ao outro. Mas precisamente esse traço de escansão temporal sendo comum aos três, A (ou cada um dos dois outros) deve apressar-se para concluir sobre o que ele é, a partir do que ele supõe que os outros são, antes que esses outros estejam em condições, eles mesmos, de fazer exatamente a mesma coisa que ele. Em outros termos, o estatuto do sujeito só é possível aqui a partir de um ato, de uma decisão sobre um saber atribuído ao outro e posto, de início, do lado do outro.

Esse estatuto e esse ato são muito diferentes do que habitualmente a Psicologia das Massas produz: eles não repousam, com efeito, sobre nenhum traço positivo – ideal ou universal - do qual o outro seria portador ou garantia, ou do qual ele seria privado, mas somente sobre a lógica, articulada no tempo, de um saber que é, a princípio, suposto a esse outro.

Lacan substitui, dessa forma, a escansão temporal e simbólica de uma falta que afeta o espaço como visível à mestria imaginária da visão – o instante de ver. Não somente o espaço não é inteiramente dado ao olhar ou dado ao olhar como uma totalidade sem resto, mas sobretudo, não é a observação, positivamente do que são e do que os outros fazem – dito de outro modo, a interrogação de sua imagem ou de sua realidade empírica e do que eu sou capaz de reconhecer aí , em suma, de sua identidade – que pode motivar o ato decisivo do sujeito. São de preferência a lógica e o raciocínio induzidos a partir do que eles não fazem, que podem ser conclusivos. Observaremos, de passagem, como essas teses, se admitirmos que são bem fundamentadas, desmentem a orientação e os métodos comportamentalistas ou cognitivistas, na medida mesmo em que estas pressupõem, em seu uso do conceito de informação (seu tratamento e suas estruturas), a possibilidade concreta e de princípio de um reconhecimento positivo, correlativo, homogêneo e sem resto do espaço e do semelhante.

Além disso, a decisão do sujeito – quando ele conclui sobre sua cor e pode encontrar a saída - está estreitamente articulada ao outro, como vimos, mas essa articulação não é aquela do ideal (fundamentalmente mortificante para o sujeito) nem também a da fascinação e do congelamento especular indefinidos e recíprocos. Trata-se de preferência, de uma antecipação, na medida em que é somente se ele antecipa a definição que esse ideal ou a imagem congelada da dualidade especular lhe designariam, que o sujeito dá chance à verdade que a saída encontrada inscreve – verdade que não é nada além dessa saída antecipada, o que Lacan chama uma “asserção de certeza antecipada”, já que o sujeito parte para ela com uma decisão seguramente certa, mas assertiva, uma vez que ela não pode ser deduzida de nenhuma generalidade, nem de nenhuma objetividade já conhecida. É somente nessa condição que a relação do sujeito ao Outro e sua questão não serão obturadas por um universal ou por uma forma. E vemos em que a relação do sujeito ao outro, tal como Lacan ilustra aqui sob sua dupla vertente, coletiva e individual, para dar lugar a uma lógica que constata a questão recebida do Outro singular por cada sujeito – na medida em que ele aceita apostar, para exprimir-se assim, sem esperar demais, isto é, sem esperar ser tomado, como de outra forma seria, no congelamento totalitário da relação especular ou do ideal.

Temos indicado, em que existe aí – na maneira pela qual um sujeito se realiza como tal e como existente – uma reversão da temporalidade imaginária: esta antecipa sempre, com efeito, o sujeito por uma imagem. Aqui, ao contrário, é o ato que vai preceder e tornar, de repente, inoperante, o congelamento numa imagem.

Destaquemos, enfim, a dimensão lógica e política do que Lacan propõe e inscreve  nesse apólogo dos três prisioneiros. É interessante que ele chegue a articular aí uma lógica que não é somente da ordem da constatação formalizada, da qual o sujeito só teria que formalizar, mas que leva também cada um – ao levar em conta essa lógica – à sua responsabilidade. Lacan faz ressaltar aí, com efeito, que, para um sujeito, só há solução coletiva, mesmo sendo, sempre e ao mesmo tempo, singular, e cada um, tomado um a um; é assim que essa lógica pode surtir efeito. Esse coletivo não é certamente da mesma ordem que a psicologia das massas ou massenpsychologie, na medida em que faz jus a uma verdade que só poderia enunciar-se como singular. Mas o que Lacan articula, ao mesmo tempo, é que essa verdade do sujeito não é isolável do processo pelo qual o outro se esforça também para encontrar a saída. Em outros termos, nosso acesso a essa saída depende da capacidade do outro a, por sua vez, ter também acesso a ela. Existe aí uma solidariedade lógica que implica cada sujeito por si mesmo e também em sua relação ao social.

Não é  necessário sublinhar o alcance contemporâneo dessa solidariedade lógica para o sujeito da Cidade, assim como para o sujeito simplesmente. As questões estão aqui
à medida dos impasses atuais para onde nos conduz a massenpsychologie mais clássica: um desses impasses sendo o acreditar – como frequentemente acontece – que se pode agir sozinho talvez para preservar o que imaginamos ser uma identidade. É importante que a lógica aqui evocada, desejada por Lacan ao lado da lógica clássica, seja mais levada em  conta hoje”

 

[1] S. Thibierge, Clinique de l’identité, Paris, PUF, 2007, p.157-164

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