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Lacan e a gente dupla

MELMAN Charles
Date publication : 07/02/2019

 

Lacan e a gente[1] dupla

Lacan tinha, sobre os judeus, um desses julgamentos que se diz complexos, como são aqueles que oscilam entre a apreensão do semblante ou do real.

É assim que ele lamentava não ter nascido judeu, nesse povo cuja fatalidade é de ser letrado, uma vez que é da letra que ele passa seu tempo a celebrar o culto.

Ele pensava em seguida que na sociedade civil, o judeu é levado a funcionar como um agente duplo, no serviço secreto de seu Deus quando se crê que ele está no serviço, público, da Cidade.

Isso começou bem cedo, com José, depois Moisés, em seguida Ester, etc.

Na análise freudiana seria a ordenação conforme a instância paterna no Outro e a benevolência suposta de suas interpretações que, no final, dariam um pleno acesso ao gozo, sexual principalmente. Donde o impasse que há em querer parar nisso, notará Lacan, quando é ele que com a impossibilidade da relação faz o sintoma. Dito de outro modo, o fim da análise freudiana seria o retorno ao ponto de início do que causou a neurose, mas agora aceito, com aquilo que há de desprezível mal feito na sexualidade, enfim, exibido.

Se a história do movimento analítico está povoada por figuras de agentes duplos é sem dúvida por causa dessa tentativa de salvar o Pai que estaria no Outro, mostrando que não faltam meios ou receitas, enfim de truques, para reparar a castração, e nos adormecer.

Ch. Melman

30 de janeiro 2019

 

[1] No original ‘Lacan et la gens double’, que permite o jogo de palavras com a homofonia entre ‘gente’ - la gens - e ‘agente’ - l’agent.

Traduction en portugais par Letícia Fonsêca

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