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Elementos Lacanianos para uma Psicanálise no Cotidiano

SETTINERI Francisco
Date publication : 28/05/2015

 

Resenha do livro: Elementos Lacanianos para uma Psicanálise no Cotidiano - Autor: Roland Chemama - CMC Editora, 2002 - 352 p.

Meu primeiro contato com um texto de Roland Chemama deu-se por acaso. Havia adquirido, em um sebo, um exemplar da edição portuguesa do Dicionário do Inconsciente1, de Mousseau, J. e Moreau, P.-F., edição de 1984 (o texto é de 1974), pela editora portuguesa Verbo. Ali, em um extenso artigo chamado Inconsciente e Linguagem, Chemama introduzia o assunto de forma elegante e concisa, trazendo ao público, como é característica sua, uma trama complicada de conceitos, apresentados, porém, de maneira clara, precisa e nuançada.E é pontuando essa sutileza e precisão que começamos pela apreciação do título da obra. Trata-se de 'Elementos' - não é todo o saber! -; 'lacanianos' - não é toda a psicanálise. A seguir, 'para uma análise', e esse 'uma' tem valor de partitivo, em nosso uso da língua. Enfim, 'do quotidiano' aponta para uma sucessão de momentos, distanciando-se da idéia de uma totalidade atemporal. O autor frustra de saída uma possível demanda de acesso a um saber total, e que possa se dizer todo. Não se apresenta, decididamente, como um Outro sem falhas, e que possa esgotar o tema.Os textos apresentados em Elementos Lacanianos para uma Psicanálise no Quotidiano prosseguem essa preocupação que seria impróprio chamar de didática, melhor seria chamá-la, antes, de preocupação com a transmissão. Além disso, seus embates com linguagem atravessam uma boa parte do livro: não é possível avaliar a contribuição de Chemama sem fazer menção a suas posições sobre a leitura das obras literárias, à questão dos efeitos do significante na clínica psicanalítica, em sua perspectiva não-hermenêutica da interpretação.Entretanto, as preocupações com a linguagem e com a literatura enlaçam-se com a clínica, com o social e com a transmissão da psicanálise. Ao Chemama leitor de Paulhan, de Poe e de Flaubert, entre outros, se sucedem o Chemama leitor de Freud e de Lacan, com preocupações que vão do metodológico - é possível uma ciência do particular? - às questões da direção do tratamento, do contrato (ou da assimetria) em psicanálise e de uma visão da interpretação na clínica psicanalítica munida do mesmo propósito de não simplificar, de não reduzir o mesmo ao mesmo, já manifestada em O Demônio da interpretação.Chemama leva muito a sério a recomendação lacaniana de abster-se de querer compreender: é pelos caminhos da pontuação, do sublinhamento e da escansão dos enunciados que podem vir a se formar os pontos de capitonê em que o sentido, por um momento, como que por capricho, chega a se deter. Não há um saber oculto, decifrável por meio de um código de iniciados, e Chemama irá garimpar os sentidos possíveis nos traços da própria escrita.E é com cuidados desse gênero, muito próximos ao tom sobre tom, que o autor se debruça sobre questões que vão do assujeitamento histérico ao social e ao histórico, detendo-se na sexuação, no quotidiano e na produção artística. Sempre se perguntando pela possibilidade de um laço social livre da perversão, tendo como premissa a unidade estrutural entre a alienação individual e o assujeitamento coletivo.E é com essa mesma fineza de análise que somos contemplados, na resumida parte final, sobre a transmissão, com o penetrante artigo A demanda do discípulo, em que Chemama examina a questão das relações entre Ferenczi e Freud, ilustrando desse modo o pedido feito por muitos, ao mestre.A edição é muito bem cuidada, trabalho realizado com dedicação pela equipe da CMC editora, que nos fornece, assim, mais uma publicação de autores ligados à Associação lacaniana internacional, de importância reconhecida em nosso meio.Muitos dos artigos que compõem este instigante livro já circularam e circulam entre nós. Está mais que na hora de ler o resto do livro. Que os Elementos possam servir de alimento, não para a possibilidade de um tudo-saber, mas para uma boa transferência de trabalho.

Resenha publicada no Correio da APPOA - Outubro - 2002

Francisco Settineri

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