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A Clinica da psicose: Lacan e a psiquiatria, vol.1

GARCIA Gilles
Date publication : 28/05/2015

 

A Associação psicanalítica Tempo freudiano do Rio de Janeiro acaba de publicar a primeira revista (1) de uma série de cinco volumes em que convida um grupo de psicanalistas da ALI, da Escola de Sainte Anne para sua realização. Graças a essa ponte de trabalho Paris/Rio, os leitores brasileiros, e os lusofônicos em geral, são previlegiados com esta compilação intitulada A clínica da psicose: Lacan e a psiquiatria - Os fenômenos elementares.Se, na França, a psicanálise emana em grande parte de um corpus psiquiátrico solidamente constituído como nos indica o prefácio, no Brasil, esses campos ficaram, infelizmente, alheios um ao outro ou então conhecemos numa época a psiquiatria chamada de dinâmica, do tipo Kaplan-Sadoc. É o exemplo mesmo do que Ch. Melman, no artigo inicial da revista - "Contribuição da psicanálise à semiologia psiquiátrica" -, nos adverte que não é uma contribuição mas uma "confusão de línguas". Isto justificaria por si só a importância dessa publicação em língua portuguesa.Além disto, há também uma importância histórica, naquilo que história significa, que a escolha e organização dos textos nos permitem apreciar. Esta importância não se deve a um exercício de erudição nem a uma simples evidência de encadeamento de fatos mas atesta uma "cadeia de transmissão da clínica" estendendo-se por um século de transmissão, se nos limitamos a contar a partir de Clérambault, como propõe a revista. Temos aí uma "cadeia" cuja mediação não se faz senão pela transferência. Ponto importante a lembrar nos dias de hoje em que a tradição psiquiátrica dita clássica está ameaçada tornar-se uma "peça de museu".Nota-se que a escolha de G. G. de Clérambault logo nos põe diante de algo que, para além da fenomenologia recolhida na escuta de seus pacientes e não na interpretação do que dizem e apresentam revela a estrutura. Assim, os fenômenos elementares, mais precisamente o automatismo mental têm valor doutrinal e não se reduzem a epifenômenos. Os laudos, colocados em anexo, são escritos num estilo quase aforístico em que refletem essa inteligência da estrutura.Desse modo, o texto de Ch. Melman, seguido de uma breve resposta de J. Lacan a G. Daumézon no Hospital Henri-Rousselle, denota um aparelho psíquico que determina os fenômenos; a estrutura material do significante regula o destino do paciente. Logo, trata-se de uma contribuição da psicanálise à semiologia psiquiátrica e a intenção da revista recorda que existe também uma contribuição da semiologia psiquiátrica à psicanálise. Como então não pensar nisso quando Lacan evoca o caso Aimée na sua breve intervenção?Breve certamente, mas enfim, estamos em 1970, e temos aí a ocasião de apreciar a retomada que o próprio Lacan faz, percorrendo quase 40 anos de experiência nas psicoses, de sua tese, passando pelo seminário de 55-56 até aquele dia. O título da revista, Lacan e a psiquiatria reaparece nesse achado de J.-J. Tyszler e L. Sciara, uma "psiquiatria lacaniana", traduzindo enfim todo este percurso.Lacan retoma ali sua tese de 1932, e o que foi seu fio condutor, o caso Aimée. Nesta ocasião, durante este comentário é que ele introduz esse famoso "ponto de ato" já que, diz Lacan, "está inteiramente claro que, tudo o que é nessa paciente construção, delírio, manifestação propriamente falando psicótica, caiu categoricamente com este ponto de acabamento...". Lacan retoma igualmente o episódio alucinatório a "Porca !" como fenômeno paradigmático daquilo que pode haver ali de inapreensível tanto para a paciente quanto para o psicanalista.O eixo deste percurso não é outra coisa senão o que o psicanalista apreende no exame do psicótico na instituição psiquiátrica: a apresentação de doentes. Nesse dispositivo, Lacan conta-se como fazendo parte do quadro, da semiologia, posicionando-se como aquele que não tem o saber, vis-a-vis do paciente mas também da sua assistência, de tal modo que ele ocupa o lugar do analisante frente à assistência, esta exercendo a função, diz Lacan, de "pessoa terceira".Além disso, a apresentação de doentes constitui uma contribuição da psicanálise à semiologia psiquiátrica, carrefour da psiquiatria e da psicanálise; é o que o artigo de M. Czermak, "O homem das palavras impostas", ilustra. Em nenhum momento deixamos essa "linha de transmissão, cadeia de transmissão da clínica". Pois é bem disso que se trata, como o indica a apresentação da revista, de uma "clínica da transmissão". Assim Czermak nas suas Pesquisas atuais... revisita a semiologia psiquiátrica: ele apresenta o objeto voz como ponto de reversão entre melancolia e paranóia, ele dá à síndrome de Cotard um valor doutrinal no momento fecundo de uma psicose, a problemática da beleza no transexual esclarece "a famosa homossexualidade da paranóia", ele declina as modalidades passionais do objet a (reivindicação, ciúme e erotomania), enfim ele reune sob a autoridade do objeto as patologias do Imaginário tal como a síndrome de Fregoli e o delírio de imaginação.Essa retomada, sem dúvida, não poderia reduzir-se ao questionamento do corpus nosográfico do tesouro psiquiátrico clássico. É por isso que os casos clínicos apresentados por J.-L. Ferretto e J.-J. Tyszler insistem na direção da cura e no manejo da transferência a partir desse referencial semiológico.Enfim, revelamos uma lembrança, uma dificuldade compartilhada com vários colegas no Brasil: 1991, Paixões do objeto de M. Czermak tinha sido traduzido em português. Difícil seguir os passos do psicanalista no seu retorno aos clássicos, donde ele tomava boa parte do impulso para avançar em suas próprias elaborações no campo das psicoses, estando ele mesmo inscrito nesta tradição clínica... enfim, como segui-lo no seu retorno, no ponto em que não tinha havido ainda, para nós, uma ida?Só nos resta felicitar este trabalho conjunto da ALI e do Tempo freudiano. Já era tempo! E esperamos então (im)pacientemente o próximo volume.(1) A Clinica da psicose: Lacan e a psiquiatria, vol. 1 "Os fenômenos elementares", abril 2004, Rio de Janeiro, editado por Tempo freudiano, Associação Psicanálitica.Gilles Garcia

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