Língua e alteridade
23 décembre 2025

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Juliana CASTRO
International

Apresentação nas Jornadas da Escola Letra Freudiana “O inconsciente, ainda”

Rio de Janeiro, 5 e 6/12/25

 

 

Falar não alcança a universalidade e em uma língua há sempre alteridade, posto que ela remete sempre a outra coisa além de si mesma. É a dimensão desse para além de uma língua que desejo trazer para discussão, dimensão que toca o real.

 

O inconsciente não fala um único dialeto, afirma Freud. O discurso remete sempre a outra coisa: a palavra, na sua tentativa de atingir o real, atinge também o furo. Cada língua toca o real à sua maneira – como lembra Omar Guerrero, cada língua bordeja o furo do seu modo – e, por esse fato, tem um vocabulário que uma outra não tem e apreende nuances intraduzíveis em outra língua. Em outras palavras, em cada língua, é um fragmento de real que se atinge, mas apenas um fragmento e, por isso, ao se falar uma língua se é constrangido pelo modo como ela toca o real. Nessa direção, considerando que o impossível de dizer não está no mesmo lugar em todas as línguas, a dimensão do indizível poderia ser atingida de outro modo em uma outra língua.

 

 A estrutura de uma língua prepara o lugar do sujeito antes mesmo que este possa surgir. E na origem do funcionamento de uma língua está o recalque original. Ou seja, a organização na língua de um impossível de dizer é condição para que se constitua o lugar a partir do qual o sujeito terá podido emergir e a partir do qual se terá podido fundar a autoridade de sua fala. Dito de outro modo, a eficácia simbólica de uma língua funda-se no recalque original, nesse furo constituinte, que se baseia na rejeição originária disso que jamais chegará à cadeia simbólica, que não pode nunca ser dito nem escrito – Unerkannte, jamais reconhecido.

 

Levando-se em conta essa dimensão do recalque original, não se trata, na passagem de uma língua a outra, de um apagamento da castração, pois não se pode dizer tudo. O recalque original é a parte do inconsciente que é o limite da análise e não será jamais interpretada, como marca Lacan. Só se pode falar de uma língua em outra língua, porque o efeito de sentido é produzido na tradução de um discurso a outro.

 

No entanto, aproximar-se de outro modo disso que é para sempre inalcançável pode arranjar as coisas de outra forma. Que não se seja atingido pelo real da mesma maneira conforme a língua que se fale é uma experiência mais evidente em uma análise em língua estrangeira. Mas essa operação está igualmente em jogo na língua materna, já que a alteridade radical da língua introduz sempre uma diferença. Então, na passagem de uma língua a outra, trata-se da passagem de uma língua, Outra: um real que não cessa de não se traduzir.

 

Trabalhamos recentemente na Jornada de dispositivos sobre os efeitos na transferência de uma análise em que analista e analisante não partilham a mesma língua materna. Gostaria de avançar mais nessa discussão, tomando essa dimensão Outra na língua ela mesma, no nosso caso, o português brasileiro, e a presença dessa alteridade, se vocês estiverem de acordo, no que Lélia Gonzalez chama de pretuguês, ou seja, nas marcas dos povos que vieram escravizados do continente africano e das populações autóctones e que transformaram com força o português europeu trazido pelo colonizador, formando assim o português brasileiro.

 

O pretuguês – neologismo que mescla as palavras “preto” e “português” – surge no discurso à nossa revelia e aí estaria sobretudo sua força. Pretuguês que teria tido origem no canto das amas de leite, das babás, na transmissão de lalangue vinda de alhures, na musicalidade de sua língua materna que veio se mesclar ao português europeu do colonizador. Quer dizer, os filhos dos senhores mamavam também a língua das suas mães pretas. Nas palavras de Lélia Gonzalez: “O português que falamos aqui, nós todos, negros e brancos, é um português profundamente africanizado, português esse que foi transformado nos seus falares graças à presença da mulher negra nesta sociedade, que anonimamente transformou o português camoniano nesse português que falamos aqui e agora, nessa linguagem muito mais rítmica, muito mais rica de som”.

 

A fusão entre línguas implica não só o léxico, a sintaxe, a morfologia, a fonética, mas, sobretudo, lalangue e o gozo que ela carrega, lembra Ângela Jesuíno. Teriam se misturado no português brasileiro diferentes lalangues: do colonizador, dos povos indígenas, dos deportados do continente africano, dos imigrantes de diversos lugares que vieram nas ondas migratórias dos séculos seguintes. A língua do mestre português foi trabalhada por diferentes línguas maternas, na medida em que os escravizados falavam a língua do mestre com lalangue de sua língua materna. Ainda segundo ela, esse trabalho subterrâneo, que implica o gozo e o corpo deixa marcas no português que falamos: “Falamos uma língua do mestre que se deixou furar pelo real de lalangues de outras línguas, pelos seus gozos. Uma língua do mestre infestada, trabalhada do interior pelas línguas indígenas e africanas”. Ela propõe uma passagem de um multilinguismo ao plurilinguismo na própria língua, guardando-se assim vivas as marcas de uma multiplicidade, ao mesmo tempo, garantido uma unidade nacional.

 

Na nossa clínica, nos encontramos cotidianamente com essas questões e seus impactos subjetivos. Um analisante chega e me conta de sua falta de lugar e localiza isso na sua fala. Bem-sucedido profissionalmente, ele vinha da favela. Ele diz do isolamento que sofre na favela por “não falar as gírias”. Ao mesmo tempo, diz de sua leitura de não aceitação no ambiente de trabalho. O que ele traz como falta de lugar está ligado a seu bilinguismo, essa circulação entre dois universos, a língua formal e a língua com as gírias falada no seu lugar de origem.

 

Uma tentativa de apagamento da língua de origem é observada também junto a famílias de imigrantes que não transmitem suas línguas nativas a seus descendentes. Assim, uma outra analisante me fala da mãe: “ela não era nem brasileira nem alemã, ela era imigrante” – um não lugar, um limbo. Ao mesmo tempo, os fragmentos de palavra dessa língua – lalangue – circulavam nas conversas de família em suas memórias de infância e fizeram enigma para ela.

 

Há para esses dois analisantes, ainda que de modos distintos, a presença de certo bilinguismo, de uma dimensão Outra na própria língua, alhures que, à revelia deles, lhes escapa. Seja uma palavra estrangeira que surja aparentemente fora de contexto, Einfall, ou uma gíria, é a isso que está submetido o sujeito, à alteridade que está na própria língua que ele chama sua, mesmo no mais familiar da língua materna. Presença do estranho que nos escapa a todos, no cerne do lugar que é mais familiar – Unheimlich.

Avancemos sobre a questão do pretuguês. Em sua passagem pelas Antilhas, Lélia Gonzalez fala que a língua crioula é, como marca de amefricanidade, um núcleo de resistência cultural que se mantém graças à continuidade da sua transmissão entre as gerações. Trata-se da língua produzida como um extrato de resistência ao efeito de poder colonizador/colonizado.

 

A respeito da colonização francesa nas Antilhas, Jeanne Wiltord diz que os contatos linguísticos entre colonizadores e escravizados são indissociáveis da violência física constante exercida sobre estes pelos senhores, violência que constituía a essência mesma do sistema escravocrata. Os escravizados se depararam com uma situação de desamparo subjetivo e de intensa desorientação linguística, com a questão de como nomear o real com o qual foram confrontados e que para eles permanecia como um real traumático. Podemos estender essa sua leitura para o que se passou aqui no Brasil também.

 

O conceito de lalangue pode nos permitir pensar a estrutura da língua crioula e do pretuguês em outros termos que não os usuais de “falar errado”. Lalangue tem a ver com o gozo e a maneira singular de se falar uma língua, a partir do modo como se deram as primeiras trocas linguísticas na infância. Lacan relaciona lalangue à experiência inconsciente de um grupo social. É do corpo afetado por lalangue que se podem reconhecer traços de gozo através dos equívocos de uma língua falada, pontua Jeanne Wiltord. Na experiência histórica específica de um grupo humano, lalangue constitui-se como um depósito de gozo, um real petrificado, recalcado, transmitido através da língua falada por esse grupo.

 

O pretuguês seria então uma marca indelével – e sobretudo porque operando mesmo inconscientemente, à revelia – de um alhures indomesticável pela língua do mestre. Alhures indomável que gera uma resistência, como efeito de colonização, algo que não se deixaria colonizar por uma língua. Tem algo que não se reduz, que não se traduz, que não passa de uma língua a outra, real que não cessa de não se traduzir e é da ordem de lalangue.

 

Se, portanto, o pretuguês não tem esse caráter deficitário do “falar errado”, mas constitui-se nessa marca irredutível de um alhures que se transmite sem que o saibamos, por gerações, e aparece à nossa revelia, permanece como questão que possamos recolher clinicamente os efeitos subjetivos disso nas análises que conduzimos.

 

Essas são questões que trago aqui hoje na expectativa de ouvir de vocês se e como elas ressoam na prática de cada um e como vocês se viram com isso na clínica de vocês.