Teremos um ano suficientemente bom? Segundo a expressão de Donald… Winnicot evidentemente. Este último sabia o que suficientemente queria dizer.
A psicanálise estava sendo atacada no final do ano passado. Ainda. Como no começo, ela perturba. Mas hoje seria o caso de interditá-la nos lugares de cuidado que ela contribuiu para fundar, estruturar. Ela teria que ser condenada a uma espécie de exílio.
Charles Melman havia percebido que a evolução do social engendrava uma relação diferente com a alteridade: visivelmente não estamos mais lidando com um próximo, mas com um semelhante; não há mais, portanto, debate ou aprendizado na ocasião de um encontro, mas antes exclusão, supressão de um interlocutor que se tornou adversário.
A psicanálise recebe esse mesmo tratamento.
O insuportável, que identificamos graças à formalização por Lacan do discurso psicanalítico. O psicanalista é convidado a se fazer o suporte de um lugar vazio, desse Outro que não responde e nos remete à nossa maneira de responder por um gozo. Essa estranha resposta é inédita, rara, às vezes desconfortável. Porque o discurso que organiza o social hoje em dia não é nem o do mestre grego, nem o do mestre de Hegel, mas muito mais o de uma criança mimada, voraz, jamais saciada, angustiada e desorientada por suas pulsões (notadamente a escópica), que precisam ser satisfeitas.
Nesta feira de consumo desenfreado, o psicanalista não é um comerciante como os outros, a despeito da IA: ele permite a um sujeito escutar como ele próprio é falado e perceber a sorte que reserva ao seu próprio desejo; e chega a fazer com que o sujeito contemporâneo note que, por mais mimado que seja, ele quer continuar assim, buscando uma positivação do objeto. Enfim o analisante aprende a situar o real com que lida para ajustar sua navegação.
O que não é lá muito vendável atualmente….
Votos de felicidade então? Com um sorriso malicioso, os olhos semicerrados, Melman já havia indicado, como bom lacaniano, que se tratava do bom choque, bem entendido, em relação ao real. Che vuoi mais/ além disso?
Omar Guerrero