Antes de começar, gostaria de agradecer aos responsáveis deste cartel por terem me convidado, especialmente à Angela e ao Cyrille. Esta noite, tentarei aceitar o desafio de dar a minha pequena contribuição para este trabalho, tão próximo da realidade da nossa clínica.
Agradeço também calorosamente à Sophie, que teve a gentileza de vir discutir comigo, o que é particularmente importante para mim, pois sem ela este trabalho não teria visto a luz do dia : foi por sua iniciativa que pudemos conhecer Chowra Makaremi e iniciar com esta uma discussão e encontros. Também passamos muito tempo juntas conversando e refletindo. Obrigada, Sophie.
Por fim, um grande obrigado à Eleusa De Oliveira, colega de Grenoble, que gentilmente me traduziu para o português.
Proponho-lhes esta noite, um entrelaçamento, uma tecelagem de trabalhos inspirados em vários momentos : nosso seminário com Cyrille Noirjean em Lyon, “A prática da psicanálise hoje”, ao qual Angela integrou este ano, o trabalho que está sendo feito aqui neste cartel franco-brasileiro e também um trabalho que estamos realizando há algum tempo com minha amiga e colega Sophie Darne, psicanalista da Analyse Freudienne, e seu grupo em Lyon.
O que o movimento Mulher, Vida, Liberdade no Irã pode nos ensinar? E sobre o quê?
Meu ponto de partida se origina das questões que nos são colocadas pelo status do corpo hoje e das hipóteses que Angela apresentou em sua última intervenção aqui neste cartel, intitulado “Vogar para outro corpo”.
Primeiro, a constatação de que hoje, pelo menos nas sociedades ocidentais, o corpo está à frente do palco.
O significante “corpo” que prevalece no discurso corrente elimina tanto as características sexuais quanto as de origem, etc. Eu levantaria a hipótese de que, se o corpo está à frente do palco no nosso social, é porque ele traz consigo a possibilidade de tirar “os invisibilizados” de sua condição. “Esses corpos que importam”1, para retomar o título da obra de J. Butler, defende que o valor de um corpo é equivalente ao valor de outro corpo, seja ele qual for. Essas reivindicações pelo corpo são reivindicações que se organizam em torno da fragilidade, da vulnerabilidade e dos corpos que são apontados como excluídos pelo discurso capitalista. Corpos excluídos, exceto para serem instrumentos a serviço do sistema.
Parece-me que essa é uma resposta pelo corpo ao discurso capitalista e que se manifesta fenômenologicamente como uma afirmação da centralidade do corpo na maneira como cada um, singularmente, tentará se definir, em uma tentativa de reapropriação de sua subjetividade. Assim, reapropriação pelo corpo, como corpo.
Parece-me, a este respeito, que no discurso corrente de hoje, o significante “Corpo” funciona como o nome dado àquele que circula na e sobre a cena social.
Outro ponto. O trabalho de Angela levou-a a formular a hipótese de que esses corpos encenados (literalmente, pelos artistas) eram resultado da sua feminização. Mas ela se refere claramente a uma feminização do corpo do ponto de vista da estrutura. Angela nos propôs essa hipótese a partir da seguinte questão: “se a operação da castração não é mais operante, então o real do corpo é tratado pelo imaginário, deixando entre parênteses a função do buraco pelo significante”2. Foi essa formulação que chamou minha atenção e que fez a junção com o trabalho de Chowra Makaremi.
Antes de entrar nesse assunto, acrescentarei o seguinte como referência:
Charles Melman desenvolve, em « Novos Estudos sobre a Histeria », num texto intitulado “O que entendemos por corpo? 3”, que o que constitui o corpo não é nada mais do que a cadeia de significantes S2. Essa cadeia de significantes S2 precisa existir para poder dar corpo, para poder constituir corpo, ou seja, mantê-lo unido. Para isso, é necessário o S1. Mais exatamente, o que dará corpo à cadeia significante dos S2, diz Charles Melman, é o que cai entre S1 e S2, ou seja: o objeto pequeno a. Em outras palavras, a castração intrínseca à linguagem.
Ouvimos como a castração estabelece um limite, dado que sempre haverá uma disparidade entre S1 e S2, ou seja um limite inatingível pela cadeia, porém para o qual a cadeia S2 vai convergir. Parece-me que entendemos muito claramente o que significa que o corpo mantém sua consistência a partir do simbólico, que a castração estabelece um limite, cria um buraco de onde se origina o nó do habitat subjetivo do sujeito falante. Será que isso ainda é verdade hoje em dia?
Ainda nesse texto, Charles Melman questiona a dialética das relações entre S1 e S2. De onde vem seu comando? E quem comanda? Se a comanda parte do S1, C. Melman nos faz notar que é necessário que o S2 dê seu acordo a esse comando, que ele consinta. E acrescenta: “A partir de S1, você não pode « falar da boca para fora »*, caso contrário, será evidentemente desautorizado, desautorizado pelo corpo”.
Minha idéia seria que o discurso capitalista, ao reduzir o corpo a um instrumento a serviço do desempenho e da rentabilidade, « fala da boca para fora ” no sentido de “fake”, de contrafação, de falsificação. Ele « fala da boca para fora », porque esse S1 que ele promove, ignora as leis da linguagem e o que resulta da erotização do corpo.
E então, essa reivindicação pelo corpo? Não seria ela entendida como uma tentativa que se impõe pela lógica, de desautorizar o comando S1 desse pseudo-discurso chamado discurso capitalista?
Isso me parece uma pista interessante e que ecoa com o trabalho de Chowra Makaremi.
Chowra Makaremi é antropóloga e pesquisadora do CNRS. Sua tese de antropologia de 2010 trata das “Zonas de espera para pessoas migrantes pendentes: uma etnografia da detenção fronteiriça na França”. Em 2018, ela publicou com Véronique Bontemps e Sarah Mazouz “O que as cidades fazem aos migrantes”. Em 2011, ela tinha publicado também “Cahier d’AZIZ, au cœur de la révolution iranienne”4 (diário de seu avô escrito durante toda a detenção de suas duas filhas, mãe e tia de Chowra Makaremi, na época da revolução iraniana de 79), e em 2019, ela dirigiu e produziu o filme “Hitch, une histoire iranienne”.
Em 2023, ela publicou uma obra intitulada “Mulher Vida Liberdade”5, um dos slogans emblemáticos da revolta iraniana após o assassinato de DJINA MASHA AMINI. Em setembro de 2025, foi lançada sua última obra, “Resistências afetivas – As políticas do apego diante das políticas da crueldade”6, pela editora La découverte.
Chowra Makaremi desenvolve e analisa a forma como este movimento de 2022 veio a atuar na sociedade iraniana. Mas, para o nosso trabalho aqui, eu destacaria esta questão: por que é pelas mulheres que essa insurreição acontece?
O que se passou no Irã em 2022? Vou tentar resumir rapidamente o que Chowra Makaremi apresenta em suas duas obras e com base em nossos encontros e discussões.
Em 15 de setembro de 22, Djina Masha Amini, uma jovem Curda, presa pela polícia de costumes, é assassinada nas prisões do Estado sob a alegação de que seu véu não estava sendo usado corretamente. Djina Masha Amini era uma jovem estudante Curda que estava de férias em Teerã com seu irmão. Essa prisão, diz Chowra Makaremi, é “um ponto de cristalização da demonstração da violência do Estado no cruzamento das dominações”.
Esse crime, é maquiado pelas autoridades que declaram publicamente que a jovem morreu de uma crise cardiaca. É isso que provoca a insurreição. Encontramos aqui o « falar da boca para fora”, o “fake”. O discurso dominante do poder que se sustenta na mentira. Ou seja, um discurso que atinge o poder do simbólico e da palavra.
Poderíamos destacar, com Chowra Makaremi, que é a morte de uma pessoa, “de um corpo minorizado, racializado, vítima de apartheid de gênero, que mostra, que torna visível aos olhos de todos, uma violência vivida de forma mais suave no cotidiano, mas que ali se torna insuportável”. (Idem no movimento Black Lives Matter, por exemplo).
Ela explica que o que aconteceu em 2022, quando as mulheres tiraram e queimaram seus véus, opera por meio de uma reviravolta, uma transgressão das linhas vermelhas do poder. Ela sustenta que é nisso que esse gesto é revolucionário. Esse gesto assume o valor de ato, ato como ato político.
Essas linhas vermelhas do poder foram traçadas, construídas a partir de três coisas :
Primeiro, pela violência nos anos 80 e os assassinatos em massa dos opositores ao regime instaurado pela revolução de 79, no momento da derrubada do Xá. Depois, pela política de negação dessa violência e de apagamento dos vestígios dessa violência. Esse apagamento passa, entre outras coisas, pela proibição de chorar os mortos, de lhes dar sepultura, os corpos do massacre de 88 não foram devolvidos às famílias, os nomes dos opositores também foram apagados, não houve sepulturas de acordo com os ritos, as valas comuns também foram cobertas por estradas, por exemplo.
Trata-se de uma operação de denegação dos afetos e interdição da emoção. Em outras palavras, a interdição toca a possibilidade de expressão do afeto, que não pode ser transmitido pela palavra nem manifestado pelo corpo. O corpo afetado não encontra possibilidade de expressão, de elaboração do afeto pela emoção. Um simbólico em curto-circuito. Assim, um corpo invisibilizado e reduzido ao silêncio.
Por fim, essas linhas vermelhas foram forjadas sobre a ficção de um regime reformável. Por exemplo: em 2000, as feministas tentaram reivindicar em relação à submissão ao homem, mas sempre dentro das linhas vermelhas do regime.
O discurso que dá um falsa aparência de liberdade, que se impõe por uma repressão bem real podendo levar até a morte, e que sempre se disfarça com mentiras e apagamento se nos desviarmos dela. Livre, desde que não ultrapassemos essas linhas vermelhas.
O que aconteceu?
Se o regime de valores até então se inscrevia do lado da prudência, da moderação, até mesmo da indiferença e do silêncio, o que aconteceu com a morte dessa jovem mulher foi uma mudança no registro das emoções: a coragem da contestação7.
E é aí que algo me interessa particularmente: é uma coragem que vem das mulheres e que se manifesta pelo gesto de tirar o véu, queimá-lo, recusar-se ostensivamente a colocá-lo de volta na rua quando a polícia de costumes lhes impõe, torná-lo não um símbolo da opressão masculina sobre as mulheres, mas um significante da mudança de discurso, de um ato político. É importante notar também que é através do corpo, onde os discursos de oposição em suas tentativas anteriores de mudar as regras dentro do regime falharam, que algo acontece e tem efeito. Através do corpo da mulher, onde o poder do gesto reside no fato de que ele vai reunir os diferentes campos (canto!)* de contestação.
Sem armas, mas com o corpo em movimento, um gesto acompanhado de palavras: Mulher, vida, liberdade… Três palavras, três significantes … Postos em ato por esse lenço empunhado, significante de um novo desejo possível.
Chowra Makaremi insiste que não se trata de um slogan. Ela fala, aliás, de um anti-slogan, próximo do Haiku. Estamos diante de uma invenção poética. “Além de uma reação, a indignação ganha valor de ação e criação”, diz ela.
Sem armas, com três significantes… e com alegria…
Poderíamos dizer que essa invenção de tecer três significantes contém em si o Real, o Simbólico e o Imaginário e seu potencial: imaginar um outro Irã, regido por uma lei e um pacto simbólico contido pela linguagem, sob o impulso da vida e não mais sob o manto da morte?
Parece-me que há, de fato, um “degelo dos afetos”, ou seja, um retorno ao corpo do que o discurso totalitário do terror havia escleroseado. Efeito do discurso social sobre o corpo e o singular. A morte de uma mulher vindo romper um sistema e reiniciar em cada um algo que se coletiviza novamente…
Podemos ouvir aqui a junção entre discurso, vínculo social e efeito sobre a subjetividade dos sujeitos envolvidos nesse discurso e sua reversão.
As linhas vermelhas do poder teriam ressecado a subjetividade (submissão do sujeito pela violência apagada e negada) e teriam contido o nó real imaginário simbólico do sujeito. De certa forma, congelar a possibilidade da labilidade da estrutura RSI para o sujeito a quem é imposto um simbólico desnaturalizado. A invasão da morte que desta vez surge realmente e não pode mais ser apagada : não só se tornou pública, mas a causa dessa morte se tornou pública e se propagou pelas redes sociais. O real da morte e a revelação de sua verdade vieram esburacar o discurso totalitário e mentiroso do poder, revelando sua dimensão de falsa aparência, de falsidade.
Torna-se então possível que o afeto encontre uma voz de expressão : o corpo se põe em movimento, permitindo que o nó RSI subjetivo volte a funcionar. Reinicia-se a estrutura subjetiva onde a afetação do corpo e a manifestação das emoções voltam a ser possíveis.
Ouçamos trechos de uma jovem anônima, “L”8, que publicou seu texto nas redes sociais no momento da revolta.
Os protestos chegaram à minha cidade alguns dias depois do Curdistão e dois dias depois de Teerã. Durante vários dias, fui exposta aos vídeos das manifestações, aos cânticos inflamados, às fotos e às figuras das mulheres combatentes e, na quarta-feira, encontrei-me numa manifestação. Nos primeiros instantes, foi estranho “estar lá”, na rua, cercada por manifestantes que eu havia observado através da tela do meu celular, que eu havia admirado, cuja ousadia eu havia chorado. Olhei ao meu redor e tentei sincronizar as imagens da rua com sua realidade. O que eu via na rua era muito parecido com o que eu tinha visto como espectadora, mas entre esses dois eus havia uma diferença que exigia um breve esforço de reconhecimento. O espaço da rua não era mais assustador, mas banal. Tudo era comum, mesmo quando homens armados com cassetetes, rifles e tasers atacavam para dispersar os manifestantes. […].A distância entre mim e as imagens que eu desejava tinha diminuído muito. Eu era essas imagens, recuperava os sentidos e via que estava num círculo a queimar um lenço, como se sempre tivéssemos feito isso. Recuperava os sentidos e percebia que, alguns instantes antes, estava a ser espancada.
[…] Eu não tinha apenas levado golpes: eu também tinha resistido durante o confronto e tinha dado golpes. Meu corpo tinha imitado inconscientemente os outros manifestantes. Lembrei-me dos rostos surpresos das forças da ordem. Só depois é que minha memória se juntou ao meu corpo.
Para mim, a diferença tangível entre essas manifestações e as que eu havia vivido antes é a passagem do “movimento da multidão” para a “fabricação da situação”. […] Nesse curto espaço de tempo, a multidão, não muito numerosa, procurava ativamente criar uma situação: “E se queimássemos os lenços?” […]
Vou agora tentar responder à pergunta: por que se trata de uma revolução feminista, através dessa descrição do desejo.
Como escrevi, essas manifestações não são, na minha opinião, centradas na multidão, mas na situação; não centradas nos slogans, mas nas figuras.
Qualquer pessoa – e vimos isso claramente nos últimos dias – pode, sozinha, criar uma situação de resistência radical e incrível, a tal ponto que vê-la deixa você estupefato. A crença nessa capacidade se espalhou amplamente.Cada uma, cada um sabe que por meio de uma figura de resistência, ela ou ele pode criar uma situação inesquecível. As pessoas – e em particular as mulheres, essas obstinadas e tenazes perseguidoras de seus desejos – se apoderaram com força desse novo desejo, e esse desejo ativa cada vez mais a cadeia de desejos de criação de situações e figuras de resistência: quero ser essa mulher nessa figura de resistência, aquela cuja foto vi, e vou criar uma figura. Essas figuras, sem terem sido repetidas, estavam presentes no inconsciente dos manifestantes, como se eles as tivessem praticado durante anos. Essa figura de resistência, esse corpo capturado pelas fotografias, desperta em outras mulheres o desejo de criar, por sua vez, uma figura, no elo seguinte da cadeia. Que desejos foram libertados da prisão de nossos corpos durante aqueles dias!
Sim, sou eu.
Um rosto para todos. Um rosto livre, sem emoções reprimidas, que chora ao rir e ri ao chorar. Uma espécie de assalto emocional. Um rosto que ainda não reconhece a alegria nem o estado de transformação. O momento em que tudo está acontecendo. O momento revolucionário. Nem antes, nem depois. Esse estado de devir, cheio de angústia. Como reconhecer alguém em uma multidão, no meio da revolução? Quando cada membro do corpo ultrapassa a consciência de si mesmo e os hábitos adquiridos. Afastando os cabelos, procurando uma lembrança distante. Uma verruga perto da orelha direita. Então você diz a si mesmo que precisa acender um cigarro e se vê fumando ali, na multidão. Você diz que precisa ir e já se vê na multidão. Você estava lá. Desde sempre. »
Quero opor o “vetor de força” que, por exemplo, nas manifestações de 200910, mobilizou a “multidão”, a esses “pontos de estimulação”. Esses pontos de estimulação, múltiplos e dispersos nas ruas. Pontos de estimulação que, a semelhança do orgasmo feminino, não se concentram em nenhum local específico do corpo ou da rua. Além do ponto de partida das manifestações, do slogan “Mulher, Vida, Liberdade” e do apelo das militantes na primeira reunião, o que prolonga a revolta de forma feminina e feminista, o que ainda hoje desperta o desejo das mulheres em todo o mundo, são precisamente esses múltiplos pontos de estimulação figurativos dos corpos revoltados. Essas figuras que os manifestantes querem encarnar, e sem as quais agora parece impossível ir a uma manifestação: […]
As imagens de mulheres resistentes que vimos nos ofereceram uma nova compreensão de nossos corpos. Acho que a singularidade dessa resistência feminina e sua natureza figurativa permitiram a iconização das capturas de tela e das fotografias, em contraste com os vídeos. Essas fotos orgulhosas foram amplamente divulgadas e rapidamente gravadas em nossa memória coletiva, a ponto de podermos escrever a cronologia dessa revolta a partir das datas de publicação diária dessas imagens. […]
Na realidade, o que torna essa revolta uma revolta feminista, o que a distingue das outras, é precisamente o fato de ela ser centrada na figura. A possibilidade de criar imagens que não representam necessariamente a intensidade do confronto ou a brutalidade da repressão, nem o desenrolar de um evento, mas que carregam a história dos corpos: uma pausa, uma síncope. Esse corpo — olhe para ele — encarna toda essa história, aqui e agora — olhe para ela. […]
Esses momentos e essas figuras são suficientes para representar a história da repressão dos corpos das mulheres. E é essa qualidade que distingue essa revolta. A revolta feminista dos corpos e das figuras. O que torna essas manifestações feministas é a abertura que elas criam para a possibilidade de produzir tais imagens figurativas. Essas imagens, que se tornaram ícones, influenciam, por sua vez, o desejo de preencher o espaço com figuras semelhantes. Eu vi esse desejo de exibição. Corpos que queriam se tornar essa figura, que viram que seus corpos podiam se tornar essa figura e que correram riscos para encarná-la e estar presentes no terreno. Corpos que, em um espaço onde o tempo de presença é limitado, buscavam criar momentos de resistência.
Já tínhamos visto imagens de mulheres combatentes : as fotos das combatentes da proteção do povo [em Rojava], por exemplo. O que distingue essas imagens das mulheres nas manifestações recentes é que as primeiras eram centradas nos rostos, enquanto as segundas não têm rostos. As primeiras, especiais, em trajes de combate, com armas; as segundas, comuns, em roupas do dia a dia. Os close-ups, os primeiros planos de rostos bonitos em postura de resistência (desejo do fotógrafo) tornaram-se imagens de figuras de resistência (desejo do sujeito). Quero que me vejam assim: imagens de cabelos ao vento e punhos levantados. Figuras de corpos em cima de lixeiras, em cima de carros.
[.]
Em um circuito infinito, imagem e figura se transformam uma na outra. As imagens divulgadas e compartilhadas estimulam a imaginação dos corpos. As pessoas não saem mais às ruas com o corpo que têm, mas com aquele que podem e querem ter. Com sua imaginação. […] Tornar-se essa imagem e, ao mesmo tempo, despertar o desejo em outros corpos: uma cadeia de imagens. Curto-circuito entre o espaço virtual e a rua.
Essas figuras pegaram, porque eram o espelho histórico das mulheres. Acho que, ao contrário da afirmação inicial “eu poderia ter sido Jina”, a imagem da mulher carregando a tocha em um carro despertou poderosamente o desejo de dizer: “eu quero ser essa figura”. Esse desejo de encarnar e expressar essa figura promissora. E foi essa figura que, além de despertar esse desejo, levou os corpos das mulheres a se expressarem e a limparem o embaçamento do espelho à sua frente. […].
As figuras que tínhamos visto até então pertenciam às mulheres militantes — e mesmo assim, não a todas. Aquelas que eram acusadas de exibicionismo, aquelas cujos rostos e nomes, centralizados na imagem, impediam que seu poder ressoasse e se difundisse. O rosto e o nome esterilizavam a figura, impediam que ela despertasse o desejo em outras mulheres, porque individualizavam demais, tornavam-nas diferentes das mulheres comuns. Hoje, essa figura se libertou do rosto. É uma figura pública, sem rosto, mascarada, desfocada por precaução, vista de costas, sem nome, anônima. O corpo político das mulheres se espalhou por todas as ruas.
Este trecho comovente me permite retomar minha hipótese e avançar sobre o que ele nos ensina. Parece-me que é um tratamento pelo imaginário do corpo que permite a reabertura da labilidade da estrutura subjetiva. Ele permite uma identificação com uma figura anônima, uma forma. Figura aqui, que pode ser entendida como superfície projetiva de espelho. É então possível retomar o corpo, reinscrever o afeto em um relato e uma história desses corpos.
Primeiro, essa passagem do espaço virtual para o espaço da rua, real: essa passagem do olhar para o ato de ir até lá. Esse movimento do corpo que de repente atravessa uma fronteira (as linhas vermelhas do poder) e abre um espaço. Qual? O da possibilidade de reencontrar uma modalidade de expressão dos afetos pela emoção. Essa passagem, essa transição de uma posição de “sulbalternidade” para essa posição desejante, estar nesse círculo de mulheres queimando os véus. “As mulheres obstinadas em perseguir seu desejo, perseguem com fervor esse novo desejo” isso contém a abertura para a vida, o gozo da vida.
Essa jovem mulher nos permite escutar que é “uma por uma”, ou seja, não em massa, não formando um único corpo: “qualquer pessoa pode criar uma situação de resistência incrivelmente radical”, “quero ser essa mulher, com seu corpo”. O que se encaixa com o que vem a seguir: esses nós de estímulos espalhados pela rua que a autora compara ao orgasmo feminino, que não é localizável em um ponto do corpo para uma mulher. Entendemos como aqui é realmente no corpo, pelo corpo, que um novo desejo desperta e se ancora. Além do slogan e da palavra de ordem feminista, é porque passa pelo corpo que se abre o espaço para o prazer da vida.
É nesse ponto que podemos ouvir o que Chowra Makaremi denomina resistência afetiva e voltar à nossa questão e às nossas hipóteses. Chowra Makaremi propõe que as mulheres “dão sua linguagem de contestação a essas revoltas […] transformando assim suas concepções do espaço público e político através da exposição de seus corpos”11. Ela retoma um pouco mais adiante que “as mulheres dão forma, ritmo e linguagem não apesar de sua minorização, mas a partir desse lugar […] sua situação de exclusão se transforma em ponto de apoio, é nesse espaço que elas precisam se manter para derrubá-lo” 12.
Há um movimento que destrói a estrutura do discurso dominante e o corpo feminino se torna o ator, o centro, o epicentro do palco. Retomando as palavras de Charles Melman, poderiamos dizer que a partir de S1, se você « fala da boca para fora », será obviamente desmentido, desmentido pelo corpo?
Então, por que as mulheres estariam mais inclinadas a apoiar esse movimento de contestação? Charles Melman nos coloca no caminho: “O corpo é o lugar do Outro, do grande Outro como infinito, que só se torna consistente na condição de ser organizado pelo gozo, é, portanto, seu buraco que lhe confere os limites organizadores da referida consistência. Ora, se supusermos que uma mulher se mantém no lugar do outro, mas como esse Outro não é castrado, – é isso que o caracteriza – podemos avançar que, por inversão, ela vai encontrar o seu corpo, ou seja, o lugar das mensagens que vão comandar para ela um possível gozo, ela vai encontrar esse corpo, fora dela. 13»
Não é nesse sentido que opera o efeito da fotografia e de sua propagação, na medida em que ela se torna figura, como nos diz L? Identificar-se uma a uma com essa figura, anônima, comum, diz ela, permite reencontrar um corpo e uma consistência possível para esse lugar Outro, aquele que é por estrutura devolvido, mas do qual ela é excluída pelo discurso totalitário, pois toda alteridade é uma ameaça à sua estabilidade e eficácia. Poderíamos dizer que ela reencontra um lugar onde se apoiar para fazer valer sua alteridade e se apoiar nela.
Podemos então avançar que seria o próprio corpo que ocuparia esse lugar de S1 necessário à organização da cadeia S2 para que ela consista?
Isso me permite argumentar que esse corpo que volta à vida, devolvendo espessura ao nó RSI e à labilidade da estrutura, viria ocupar o lugar de S1 a partir do qual uma narrativa pode se abrir e se desdobrar, ordenar a cadeia de S2 para que ela consista e… resista? Devolvendo assim suas cartas de nobreza ao simbólico e que é pelo imaginário que a operação pode ocorrer.
Não seria essa uma pista para pensar esse novo lugar do corpo, o do centro do palco social? O corpo se estabelecendo como S1 a partir do qual uma nova “gramática” é inventada… Ousemos… como luta contra a aniquilação das subjetividades pelo discurso capitalista?
Agradeço a todos.
1 Judith Butler, Corpos que importam : os limites discursivos do sexo, n-1 edições, 2019
2 Angela Jesuino, «Vogar para outro corpo ? », Maison de l’Amérique Latine, 2 avril 2025, disponivel no site de l’ALI https://www.freud-lacan.com/
3 Charles Melman, « O que entendemos por corpo ? » Novos estudos sobre a histeria, editora Tempo Freudiano (esgotado)
* n’importe quoi » no texto
4 Chowra Makaremi, le cahier d’Aziz, Folio actuel, Folio, Ed.Gallimard, 2011
5 Chowra makaremi, Femme, vie, liberté, cahiers libres, Ed. La découverte, 2023.
6 Chowra Makaremi, Résistances affectives, les politiques de l’attachement face aux politiques de la cruauté, cahiers libres, Ed. La découverte, 2025.
7 Embora tenha havido várias tentativas de movimentos contestatórios por diferentes grupos no país desde 2017/2019, até então cada um agindo por conta própria, o que vem ocorrendo desde setembro de 2022 é uma unificação em torno da contestação do poder : reunir-se em torno de uma demanda por mudança de poder e não mais por mudanças dentro do poder definido por suas linhas vermelhas.
8 [As notas são da autora, L., salvo indicação em contrário.] Meu amado, que observo à distância, certa vez fez referência a uma carta: L. No tumulto dessa experiência revolucionária, que para mim é semelhante à experiência de amar, decidi deixar de lado minha dúvida habitual quanto à atribuição dessa letra e reivindicá-la como minha. Assinar este texto com o nome de L é uma apropriação revolucionária dessa referência. Esse nome, ao mesmo tempo em que me protege da repressão do regime, me liberta na minha ideia do amor — em um momento em que os nomes se tornaram códigos [de raliamento]. A palavra “código” faz referência à frase pintada no túmulo de Jina Mahsa Amini, morta em 16 de setembro de 2022 pela polícia moral: “Seu nome é o nosso código de mobilização”. Nota da tradutora.
[…]. Na rua, a certa altura, você pensa que deveria correr e percebe que já está correndo. Você diz a si mesmo que deveria acender um cigarro e se vê, ali, no meio das pessoas, fumando
9. O corpo age antes da consciência e não está sincronizado com ela. Agora acho que nem mesmo a morte assusta mais alguém que vive na rua. A experiência da rua suspende até mesmo o pensamento da morte — e isso é o que é realmente assustador. É isso que os espectadores veem: pessoas prontas para morrer. Estamos prontos para morrer. Não, nem mesmo estamos prontos: nos libertamos do pensamento da morte. Superamos a morte. A proximidade e o confronto com o medo, a superação desse medo no calor do corpo — esse é o campo do real.
10 Em 2009, a vitória no primeiro turno do presidente conservador Mahmoud Ahmadinejad contra o candidato reformista Mir-Hosein Mousavi, em eleições denunciadas como fraudadas, provocou grandes manifestações que reuniram vários milhões de contestatários em todo o país, rapidamente e massivamente reprimidas.
11 Chowra Makaremi, Résistances affectives, les politiques de l’attachement face aux politiques de la cruauté, cahiers libres, Ed. La découverte, 2025.
12 Idem
13 Charles Melman, Corps propre et jouissance, in Problèmes posé à la psychanalyse, PP54-67, Ed Eres, 2009
12 Termo emprestado de Chowra Makaremi, aos semblentes