A transmissão da psicanálise e seus impasses
31 octobre 2005

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FLEIG Mario
International

Lacan introduziu em sua escola, na Proposição de outubro de 1967, a partir de sua conceituação do que seja a experiência de uma análise levada até suas últimas conseqüências, o procedimento do passe como dispositivo que visa articular a questão do fim de análise com a nomeação de analistas e da assim dita análise didática. Trata-se então da tentativa de inventar um dispositivo que preserve a transmissão da psicanálise e a associação entre analista que seja de acordo com a lógica do inconsciente e do desenlace da transferência, evitando os efeitos de grupo, a cristalização burocrática da análise didática e a manutenção do discurso do mestre. A proposição sobre o passe, que não vamos aqui retomar, diz respeito ao que especifica o discurso analítico, e por isso, ela deve se fundar nos próprios princípios da psicanálise. Contudo, sobre os resultados da experiência do passe, Lacan (1973) nos lembra que se trata de uma experiência em curso, chegando mesmo a reconhecer seu fracasso. Deste modo, podemos nos perguntar se os impasses deste salto da posição de analisante para a posição de analista poderiam se resolver no dispositivo do passe como a única via de nomeação de analista, como chega a propor Lacan na carta aos italianos em 1974. Aqui seguimos o que propõe R. Chemama em seu livro Elementos lacanianos para uma psicanálise no cotidiano:

“Parece-me que, à unicidade da estrutura prevista pelo dispositivo do passe, logo correspondeu um discurso homogeneizante, para não dizer estereotipado, sobre o fim da análise e a passagem a analista. Sem sequer falar de observações totalmente novas, não produzidas pelo passe, a própria leitura das indicações de Lacan tendeu a ser, em particular sobre esse ponto, redutora.” (p. 344)

O autor, refletindo sobre a experiência da transmissão da psicanálise na Association freudienne, salienta que a questão do desejo do analista, que pode emergir na destituição subjetiva própria do ato analítico, não necessariamente fica circunscrita a um único momento de ruptura. Neste questionamento, ele se apóia na distinção entre um passe simbólico, específico do procedimento instituído, e um passe real, que se dá numa temporalidade própria do desejo inconsciente. Vai ainda mais longe, pondo em questão a necessidade de reinstitucionalizar o passe e relativizando este como crivo obrigatório para a nomeação de analistas.

O caminho que Chemama nos propõe requer que voltemos a nos interrogar sobre o que seja então um passe real, não circunscrito a um dispositivo instituído. Como isso pode ser formulado a partir da experiência em fracasso da proposta de Lacan? Como se pode reconhecer o desejo em causa na passagem a analista, fora dos efeitos de grupo e de um dispositivo estereotipado? Qual a particularidade que distingue aquele que se autoriza por si mesmo ao lugar de analista daquele que simplesmente conclui sua análise? Certamente se trata de uma autorização por si mesmo que não se faz inteiramente sozinho, ou seja, requer o testemunho do Outro.

Visando contribuir para a discussão do lugar do passe real, quero introduzir inicialmente uma observação sobre a função da autenticação na formulação do desejo de saber que está em jogo no passe. Podemos partir do pressuposto que o ato de passagem para o lugar de analista requer, como condição necessária, que se dê a autenticação, na presença do testemunho do Outro.

Isso nos faz voltar ao começo desta invenção de Lacan, no que ela tem de coerente com o retorno à experiência freudiana, relativa ao estatuto do objeto de amor de transferência e suas conseqüências no fim da análise, ou seja, a aproximação feita entre o narcisismo freudiano com o estádio do espelho. O estádio do espelho pode nos auxiliar, visto que a criança apreende sua imagem unificada não na imagem virtual, mas na autenticação que o Outro lhe devolve. Isso nos indica que o estádio do espelho, momento crucial da relação do sujeito em estruturação com o Outro, não se reduz a uma fase transitória, mas é uma função, essencial em toda operação de autenticação de um ato. Não se trata simplesmente de uma operação que se supõe que o Outro a realize, mas antes da operação realizada pelo próprio sujeito no ato de apreender no Outro a autenticação de seu ato. Nesta perspectiva é que se deve ler o enunciado lacaniano de que “o analista só se autoriza por si mesmo”. A função dos passadores é de autenticar o passe, dando testemunho justo a respeito daquele que faz a passagem. Que isso não tenha que se restringir ao passe simbólico, como dispositivo formalizado, é o que nos permite pensar a conclusão da avaliação do mesmo feita por Lacan em 1973: “Se há alguém que passa seu tempo a passar o passe, sou justamente eu.”

A experiência psicanalítica, frisa Lacan ainda nesta mesma avaliação do passe, permite entrever pela linguagem que “o homem se encontra separado de tudo o que diz respeito à relação sexual, fazendo com isso sua entrada no real e que há vias que permitem o acesso a um certo número de pontos que testemunham a presença do próprio real na origem do discurso”. Em função disto, uma sociedade de analistas não pode se fundar no discurso do mestre. A pequena chance de haver algo de transmissão da psicanálise se encontra então naquilo que testemunha a presença do real na origem do discurso. Esta pequena chance, como entrada no real, é o que funda o autorizar-se, no enlace com o testemunho apreendido no Outro, presentificado no interior da instituição psicanalítica. Continua Lacan:

“O passe com efeito permite a qualquer um que pensa que pode ser analista, a qualquer um que está prestes a se autorizar, ou se ele mesmo já não se autorizou, comunicar o que o fez se decidir, o que o fez se autorizar assim e se empenhar num discurso do qual não é fácil ser o suporte, me parece.”

Lacan acrescenta que “alguns passantes jamais poderão esquecer o que foi para eles a experiência do passe, foi algo como um clarão”. Este “clarão” lhe evoca o fragmento 64 de Heráclito: tudo é governado pelo raio. Lacan traduz o keraunós por clarão (l´éclair), talvez seguindo a leitura de Heidegger, que não faz a distinção entre o raio (la foudre) e seu clarão. O principal não é o clarão, que deixaria ver todas as coisas, mas o raio, fulminante, que traz o fogo destruidor, ao qual nada resiste. Todas as coisas, enquanto submetidas ao poder do fogo, estão afetadas de uma precariedade radical. A consistência subjetiva, articulada a partir do discurso do mestre, nos obriga a pensar o mundo como um universo, ao passo que alguém fulminado pelo real já não pode mais deixar de se governar pela heterogeneidade de todas as coisas. Já não há mais mundo, pois este se dissolve no imundo. A experiência do real no percurso analítico é da ordem de um golpe fulminante, e é a partir do mesmo que algo se pode transmitir. É interessante observar que o golpe fulminante (le coupe de foudre), como surpresa total, também nomeia o golpe da paixão amorosa.

Faço uma segunda observação a partir da leitura dos seminários de Lacan. Que relação existe entre o ensino ao longo de cada seminário a questão da transmissão da psicanálise? No que os seminários podem nos auxiliar na questão do passe, ainda que se refiram mais diretamente à experiência da própria análise?

Ora, não cessando de passar o passe, Lacan não cessa de buscar um modo de transmissão da experiência da psicanálise que não caia nos ardis do apelo a um mestre: a experiência psicanalítica não está imune a esta armadilha do discurso. Lacan propõe um discurso que não seria da aparência, em seu seminário de 1971, assim como no seminário de 1976-77 se confronta com a função do poeta, naquilo que teria para ensinar ao psicanalista. Então, o que poderia Lacan estar nos dizendo a respeito da transmissão da psicanálise no seu encontro com a arte, especialmente a função poética? Examinemos alguns aspectos deste interesse de Lacan pela obra poética.

Quais os mistérios que se escondem e se desvelam na operação poética? Em que isso pode interessar ao psicanalista? Sabemos o quanto Freud se debruçara sobre os enigmas que se insinuam na tragédia e na comédia, abrindo uma via de mão dupla nas relações entre o campo da arte e o da psicanálise. De um lado encontramos os analistas que tomam a obra de arte, principalmente os textos literários, como material para comprovar sua teoria. O próprio Freud não se desvia disso, e sob a alcunha de psicanálise aplicada, diagnostica Hamlet como histérico. Mas, em contrapartida, não envereda pelo mesmo caminho em seu ensaio sobre a Gradiva ou mesmo em seu artigo a respeito do Moisés de Michelangelo. Freud considera os poetas e os romancistas como “preciosos aliados, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar. Estão bem adiante de nós no conhecimento da alma, gente comum, pois se nutrem em fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência.” (Freud, 1907) Seguindo este caminho, é inútil interpretar Édipo. Ao contrário, este é que nos permite situar o que diz todo sujeito.
Lacan, em seu texto “Homenagem a Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. Stein”, retoma, já numa perspectiva ética, a metodologia da Gradiva. Seria, diz ele, uma grosseria “atribuir a técnica manifesta de um autor a uma neurose. (…) a única vantagem que um analista teria o direito de tirar de sua posição, se esta lhe for reconhecida como tal, é de se lembrar com Freud que, em sua matéria, o artista sempre o precede e que, portanto, não deve fazer-se de psicólogo ali onde o artista abre-lhe o caminho”. (p. 125)

Contudo, isso não basta para esclarecer no quê o escritor antecipa a psicanálise. Quais seriam “as fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência”? Como nos lembra Chemama (2002), “a questão está sempre para ser retomada: mas afinal, sobre o quê o escritor nos ensina?”

Poderíamos pensar que a principal contribuição do escritor, especialmente do poeta, estaria na própria operação poética, na medida em que introduz as várias funções da linguagem. Encontramos fenômenos idênticos no discurso inconsciente, quando se produzem articulações literais ao longo da fala do analisante, sobretudo num instante de separação e desprendimento do objeto causa do desejo como efeito do corte de uma identificação alienante.

Entretanto, seguindo as indicações que Lacan nos dá, encontramos a contribuição decisiva do escritor na atenção à literalidade, ou seja, no efeito de corte inesperado ao se deixar guiar pelos próprios caminhos da língua. Neste ponto, a operação da função poética pode efetivamente interessar ao psicanalista, confrontado com aquilo que ouve na fala do analisante. Estas indicações nos são fornecidas por Lacan, principalmente no seu seminário 1976-77, ao propor que a combinação dos elementos da escrita tem valor por si mesma, para além do sentido de cada um de seus termos, como ocorre também nos provérbios.

Se considerarmos que Lacan, no seminário 1971, introduz o discurso psicanalítico como aquele que não faz aparência de plenitude (faire semblant), pode-se inferir que tanto a operação analítica quanto a poética se dão no corte que faz cair do discurso do mestre essa aparência de plenitude.

“Os efeitos da emergência da função do significante, é isto que deve ser introduzido para que alguma coisa mude, que não pode mudar, pois não é possível, é ao contrário pelo fato que o discurso se centre de seu efeito como impossível, que ele teria alguma chance de ser um discurso que não seria da aparência.” (13.01.1971)

A especificidade da operação poética, que Lacan toma como indicador do que se passa na operação analítica, é o giro do discurso, ou seja, daquele que faz laço social ao induzir uma aparência de plenitude para a inscrição do impossível desta aparência. Aqui podemos situar o ponto no qual o artista se antecipa ao analista. De um lado, está o discurso da aparência, quer esteja na fala cotidiana ou no enunciado científico, e de outro lado, a pequena articulação, geralmente presente num detalhe ou na ausência deste, que faz buraco em seu devido lugar, como nos alerta Lacan.
“Os efeitos da articulação da aparência – quero dizer da articulação algébrica e, como tal, trata-se apenas de letras – eis aqui o único dispositivo por meio do qual designamos o que é real; o que é real é o que faz buraco nesta aparência. Nesta aparência articulada que é o discurso científico, o qual progride mesmo sem mais se preocupar se é ou não aparência. Trata-se apenas de que sua cadeia, sua rede, sua lattice, como dizemos, faça aparecer os devidos buracos no devido lugar. Ele não tem ponto de referência a não ser o impossível ao qual conduzem suas deduções; este impossível é o real. O aparato do discurso, na medida em que ele, em seu vigor, encontra os limites de sua consistência, eis com que visamos, na física, a algo que é o real.” (20.01.1971)

O buraco na consistência da aparência, efeito de corte no fascínio de um ideal de gozo, faz uma borda na qual, diz Lacan, “a escrita, a letra são no real, e o significante, no simbólico.” (12.05.1971)

Como é que o poeta, o artista, o escritor e o analista podem realizar esta façanha? Qual é seu segredo? Ora, “o próprio da poesia quando ela falha, é justamente de não ter senão uma significação, de ser puro nó de uma palavra com outra palavra. Disso resulta apenas que a vontade de sentido consiste em eliminar o duplo sentido, o que se concebe ao realizar este corte, isto é, fazer com que haja apenas um sentido.” (15.03.1977) Mais do que apenas um sentido, acrescenta ainda Lacan.

O poeta substitui o sentido ausente pela significação (a Bedeutung, no sentido de Frege, como na significação do falo, ou seja, aquilo que faz referência ao introduzir sua falta, seu vazio), que se expressa, por exemplo, no qualificativo que Dante coloca em sua poesia, ou seja, que é amorosa. O desejo tem um sentido, enquanto que o amor cortês, como já apontou no seminário sobre A ética da psicanálise, se suporta no vazio. Isso quer dizer que a poesia resulta de uma violência feita ao uso corrente da língua. “O sentido tampona, mas com a ajuda do que se chama a escritura poética, vocês podem ter a dimensão do que poderia ser a interpretação analítica.” (19.04.1977)

A operação poética, reconhece Lacan, ensina ao psicanalista algo sobre a interpretação analítica. E ainda mais, a verdade tem a estrutura do dizer poético. “A metáfora, a metonímia não tem alcance para a interpretação senão na medida em que sejam capazes de fazer função de outra coisa, para o qual se unem estreitamente o som e o sentido. É na medida em que uma interpretação justa extingue um sintoma que a verdade se especifica por ser poética. Não é do lado da lógica articulada que se deve sentir o alcance de nosso dizer.” (19.04.1977)

É dentro desta perspectiva que se pode ler a queixa de Lacan a respeito de sua insuficiência poética.
“A astúcia do homem, é de preencher tudo isso com a poesia, que é efeito de sentido, mais igualmente efeito de furo. Não há senão a poesia que permite a interpretação, e é nisso que eu não consigo mais, em minha técnica, com que ela se sustente; eu não sou suficientemente poeta (pouâte), eu não sou pouâteassez!” (17.05.1977)

O poema marca o limite do discurso da ciência. A falha no saber, daquilo que não se deixa inscrever, inscrevendo assim mesmo, na insistência. Enigma de todo enigma. O poeta é um sabedor dos enigmas, deixando-se levar pelo que não sabe, isto é, pelo real.

Como pode alguém ser poeta? Como pode alguém vir a ser analista? “É preciso dizer que para se constituir como analista é preciso estar incrivelmente mordido, mordido principalmente por Freud, isto é, acreditar nesta coisa completamente louca que chamamos inconsciente e que tentei traduzir por “sujeito suposto saber”, diz Lacan na conclusão da jornada da EFP de 1978.

Texto publicado em Letícia P. Fonsêca (org.) O passe: reflexões. Recife, Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2002, p. 101-8.

“Proposition du 9 octobre 1967 sur le psychanalyste de l’École. Scilicet, 1, 1968; “Discours prononcé par J. Lacan le 6 décembre 1967 à l´EFP, Scilicet, 2-3, 1970.

“Sur l´expérience de la passe”, Ornicar?, 1977.

“Note italienne”, Ornicar?, 1982.

Elementos lacanianos para uma psicanálise no cotidiano. Porto Alegre: CMC, 2002.

J. Bergès, em seu Seminário com G. Balbo (Há um infantil da psicose? Porto Alegre: CMC, 2003) nos lembra que “trata-se do momento posterior ao estágio do espelho, descrito por Lacan, quando a mãe não obedece mais à criança. No momento em que a criança se vira para a mãe, esta lhe escapa.” (p. 116), momento da queda do objeto a. Lacan aborda isso na aula de 27.02.1957, no Seminário 4. (nota acrescentada em 06.06.2003)

D´un discours qui ne serait pas du semblant (1971), inédito (De um discurso que não seria do semblante. CEF-Recife, 1996, publicação não comercial); L´insu que sait de l´une-bévue s´aile à mourre (1976-77), inédito.

Cf. a elucidativa análise da interpretação proposta por Marie Bonaparte a respeito da obra literária de Edgar Alain Poe, Aventuras de Arthur Gordon Pym, feita por R. Chemama (2002).

J. Lacan, Shakespeare, Duras, Wedekind, Joyce. Lisboa, Assírio & Alvim, 1989.