O analista é fogo-fátuo
14 mai 2006

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VICTORA GOMES Ligia
International

 

O analista é o fogo-fátuo…
Ele não ilumina nada.
Ele brota, inclusive, ordinariamente, da pestilência.
… Esta é sua força.

Vou falar da minha prática (clínica?) em um outro lugar, que não é o meu consultório.

Não é uma clínica psiquiátrica, porque as pessoas ali, não são “doentes mentais”. Nem é um hospital, pois algumas das pessoas que estão ali, não padecem de doença alguma. Não é uma escola, pois as pessoas, em questão, são bebês e criancinhas. Mas também não é uma creche – já que elas vivem ali; e nem tampouco é uma residência – embora muitas delas habitem permanentemente ali. Nem mesmo é um orfanato, se bem que muitos ali sejam órfãos.

Vou contar por alto a história de alguns dos meus pacientezinhos.

Clara, com a pele bem negra, é a mais “velha” de todos (6 anos). Clara sofre de complicações causadas pela SIDA: infecções repetitivas nos ouvidos, olhos, garganta e na pele. Vive na instituição desde os 2 anos, tendo já ultrapassado a idade-limite estabelecida para permanência, mas, como não teria para onde ir, vai ficando. Seu pai é falecido, vítima da SIDA, e sua mãe, HIV +, tem 7 filhos, todos institucionalizados, sendo o menor deles com 2 meses de idade. Clara conversa muito, mas recusa-se a falar de sua história. Quando eu lhe pergunto, ou se tento dizer-lhe qualquer coisa relativa a isso, ela se faz “de morta” ficando imóvel com tanta perfeição, que nas primeiras vezes pensei que ela estivesse tendo uma crise de ausência.

Máicom, irmão de Clara por parte de mãe, 3 anos. Negativou os testes de HIV há um ano, mas mesmo assim, sua mãe não o retirou da clínica, nem o libera para adoção. Máicom provoca as outras crianças, as atendentes, e até a mim, empurrando, mordendo, batendo. Quando eu tento conter sua agressão, abraçando-o, “gruda-se” em mim, e não me solta mais. Demonstra compreender, quando se lhe dirige a palavra, mas não responde.

Deividson, 2 anos e 2 meses, interno na instituição desde 1 ano e três meses. HIV +, quando chegou, trazia marcas de maus-tratos, negligência e abandono. Sua mãe já faleceu, vítima da SIDA, e Deividson nunca recebeu visita. Alegre e afetivo, apresenta porém um importante retardo de crescimento e desenvolvimento. Ainda não fala.

Kismy, 3 anos e 6 meses. HIV +. Foi internada na instituição desde que sua mãe faleceu, quando a menina tinha 8 meses de idade. Seu pai é desconhecido, e os familiares da mãe não toleram a presença da menina em casa. Quando, no Natal, ela foi em visita à família, houve suspeita de abuso e maus tratos. Agressiva com os coleguinhas, não fala, mas demostra compreensão: atende às perguntas que lhe dirijo apontando o dedinho para as coisas.

Parece que há um sintoma comum ali: essas crianças não falam!

Simbolizar o imaginário do real…

Difícil especificar o papel do psicanalista “ali”, neste lugar que você já descobriu se tratar de uma clínica em tempo integral para crianças de 0 a 5 anos, portadoras do vírus da Síndrome de imuno-deficiência adquirida (SIDA).
O que seria banalmente esperado de um psicanalista em uma instituição como esta? Algo do tipo: “instituir um lugar de escuta possível” – onde a palavra falada se instaure, e possa enfim se produzir um sujeito no plano simbólico…? Ou: propiciar um lugar onde as pessoas – crianças neste caso – excluídas, ou prejudicadas socialmente, “possam se inserir no contexto social”…? Tudo isso parece pura balela lacaniana quando a gente está “ali”.
Até por que: seriam somente as crianças, os “sujeitos” a serem escutados? O que será que têm a dizer os funcionários – que trabalham em tal ambiente, carregado de sentimentos ambivalentes? E os familiares – que as abandonaram, às vezes por não terem condições financeiras, por medo ou por preconceito? Tentar escutar o que vem de uma realidade assim cruel, seria poder acolher, agora em palavras, todas essas histórias de vida (vida dura, para quem está “ali” sem nem saber por que), e – de morte.

“Simbolizar o imaginário do real”, atribuição que Lacan deu ao discurso analítico, quando, nas combinações possíveis dos três elos – real, simbólico e imaginário – os faz girar, prendendo-os borromeanamente pelo lado esquerdo (levógiro), o real estando colocado por cima do simbólico, e o elo do imaginário “costurando” os outros dois. Seria essa a função da psicanálise, enquanto que RSI – realizar o simbólico do imaginário, seria o papel das religiões, e IRS – imaginar o real do simbólico, o das matemáticas .
Nesta relação entre as três instâncias, simbolizar o imaginário do real poderia ser, então, poder falar/escutar algo até então indizível, ou impossível de ser dito? E mais: fazer isso apostando na vida (afinal, o que garante o futuro, a não ser esta aposta?) O impossível de ser dito, talvez, sejam as histórias tristes, de bebês e criancinhas que não têm mais ninguém, a não ser seus companheirinhos da clínica, de vez em quando algumas visitas, as “tias” e os “tios” – funcionários, diretoras, médicos e voluntários. (Aliás, todo o corpo médico ali, é composto por trabalhadores voluntários. Para nós, psicanalistas, tudo bem, pois nosso trabalho é sempre “voluntário”. Isso faz parte do tal “desejo do analista”: suportar ser colocado em um lugar Outro – lugar do morto – por nossos analisantes, e é voluntário no sentido mais amplo: por desejo e vontade próprios.)

… à espera de uma palavra…

No seminário Os não-tolos erram, a propósito de se haveria um saber do real, e da relação entre este, e o ato analítico, Lacan respondeu com a seguinte metáfora: o analista é o fogo-fátuo… ele não faz “fiat lux”, ele não ilumina nada, ele brota, inclusive, ordinariamente, da pestilência… Esta é sua força.

Fogo-fátuo, nós sabemos da nossa mitologia gauchesca, é aquela luz que surge na escuridão dos pampas; que brota à noite, aparentemente no meio do nada; ou nos cemitérios abandonados nas cochilhas; ou onde há animais mortos. Boi-tatá, fogo vivo, associado com assombrações, por ser uma chama fugaz, que nasce espontaneamente dos gases emanantes da matéria orgânica em decomposição.

Quando um dos elos da cadeia se abre, o nó falseia, e a morte ronda… O saber-insabido, este dito saber do Real, vindo do inconsciente, estaria presentificado em cada uma dessas crianças silenciosas, como uma ameaça de morte, vinda desde um passado oculto. Presente, mas inacessível. Este saber se alça do real, mas em forma de sintoma. Como o fogo-fátuo que brota da morte, se desprende dos eflúvios das palavras que não puderam ser pronunciadas – talvez porque fossem histórias terríveis demais para serem contadas? Então, ficou só o silêncio. Taparam-se todos os buracos. Calaram-se as crianças: mortos não falam…

Nessa relação precária entre a vida (situada por Lacan no campo do simbólico), o corpo (imaginário) e a morte (real), uma possibilidade seria, a meu ver, se, nessas crianças que não podem falar, porque há um real mortal, e/ou um fantasma impossível de ser simbolizado, mas no qual – seja pela palavra, seja pela escuta do analista – se pudesse inserir aí uma falta, em forma de desejo, por exemplo. Então, isso que vem do real, poderia se reposicionar como algo fora, uma ex-sistência, e o imaginário poderia entrar, costurando tudo: corpo, linguagem e real; buraco e tecido; falta e ser… As três instâncias – real, simbólica e Imaginária – agora estariam amarradas em cadeia borromeana, os três aros juntos, e, ao mesmo tempo, independentes.

Neste mesmo seminário, na aula de 21 de maio de 1974, tratando ainda sobre o ato analítico, Lacan nos ensinou: – o ato analítico … não só não opera a não ser com a palavra, senão que se especifica por não operar mais que por ela.
O analista, então, sendo convocado ali como desejo, em forma de escuta; ou como palavra, em forma de ato-analítico; ou como sinthoma, suportando o nó de cada um, poderia então, operar um ato, desde este Outro lugar.

Tal como fogo-fátuo, que nasce do nada, do silêncio da morte… mas é capaz de operar um ato único, a interpretação, que transforma morte em vida, sintoma, em palavra: esta é sua força.

LACAN, Jacques. Seminário Les non-dupes errent. Publicação interna da Association freudienne internationale. Aula de 23/04/74.

Síndrome de imuno-deficiência adquirida, ou AIDS, provocada pelo vírus HIV.

Nomes modificados para proteger a identidade das crianças, porém guardando o referencial estilístico dos nomes em “moda” no seu ambiente de origem.

LACAN Seminário de 18/12/73

LACAN Seminário Les non-dupes errent

Tradução e grifos da autora