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Freud poderia ter se tornado lacaniano ? É pouco provável. Ele estava efetivamente muito apegado em querer salvar o pai e em fazer do gozo fálico uma norma.
A assunção da sexualidade - permanecida infantil na neurose - torna-se nesse espírito o objetivo da cura deixando a transferência tão irredutível quanto o amor de Deus.
O que está em jogo não é moral mas engaja uma reflexão sobre a moral, ética então.
Se é verdade, efetivamente, que uma estrutura - essa da linguagem- impõe sua ordem e suas condições às regulações senão biológicas do organismo, a atividade sexual é somente uma modalidade das interpretações possíveis à vista de um Outro definitivamente silencioso e enigmático. A direção da cura encontra-se então deslocada, porque o sexo não mais se inscreve num contencioso a ser resolvido com o pai - nem que fosse de forma amigável - mas no registro das responsabilidades que o sujeito tem de endossar.
Tem mais.
Com efeito, a interpretação freudiana faz normalmente da instância fálica o referente inconsciente do sentido : libido. Ela desconhece assim a causa do desejo - o objeto a na teoria introduzido portanto desde o Projeto para uma psicologia científica (1895) sob a forma do objeto desde o início e definitivamente perdido e procurado pelo bebê, retomado mais tarde sob os traços dos objetos ditos pré-genitais. Nessa perspectiva, o complexo de édipo não mais se impõe como uma determinação original, mas como o deslocamento na pessoa da mãe da perda de um objeto parte dela : o seio por exemplo.
O debate sobre esses pontos e a interdição do incesto não é qualquer e concerne o conjunto da coletividade dos psicanalistas.
Por nossa parte, almejamos fazê-lo avançar nomeando nossa Association Internationale, freudiana desde 1982, lacaniana desde 25 de outubro 2001, após voto obtido por unanimidade.
Lacan dizia : "sou freudiano. Cabe aos meus alunos serem lacanianos, se quiserem".
Mas será preciso que possam, quer dizer, provem que a imputação feita ao pai não seja necessária para autorizar o gozo e protegê-lo da angústia.
Charles Melman setembro de 2002
Tradução : Celina Ary Mendes Garcia
Revisão : Angela Jesuino Ferretto