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A prática psicanalítica hoje
Conferencias
Auteur : Charles Melman
O Tempo Freudiano Associação Psicanalítica comemorou seus dez anos de existência trabalhando sobre o seminário de Lacan A ética da psicanálise. E para conclusão desse percurso convidou Charles Melman para fazer, no Rio, um seminário, que ele intitulou "E o que é que ele quer, o psicanalista?". A publicação deste livro, reunindo textos - inéditos em português - sobre a prática psicanalítica nos dias de hoje, vem pôr em relevo a extensão e a diversidade do campo clínico abordado por Charles Melman, sempre guiado pela preocupação de transmitir a teoria e a clínica psicanalíticas. São conferências das quais a transcrição se esforçou em ficar o mais próxima possível da enunciação, para preservar seu caráter vivo e espontâneo. Sem dúvida lastradas em Freud e Lacan, elas vão mais além, trazendo o fruto da escuta de pacientes que caminham no nosso mundo contemporâneo. Não são mais os de 1939, nem os de 1981. Fala-se de Massenpsychologie, Aristóteles ou Platão, mas sobretudo, o autor nos leva a escutar "ce qu'il y a" - "o que é que está havendo" -, como recomendava Lacan. É essa fala, da atualidade, que permite a melhor transmissão do ensino daqueles que nos precederam, que aí se encontra posto à prova diante da emergência dos novos desafios da clínica. Dessa maneira, a cadeia de linguagem que vem de Freud e Lacan, tramada pela fala de Charles Melman, faz a tessitura destes textos - ele lembrava recentemente que, em grego, tecido e texto são a mesma palavra. Trazidos ao Brasil, serão ainda retomados e transformados por outra língua. Poderíamos falar de uma dimensão Outra como a de um bordado sobre o tecido? Já se disse que traduzir é trair. É preciso, então, se responsabilizar pela traição e tirar conseqüências. Esse trabalho de tecelagem, dos dois lados do oceano, faz com que nos sintamos numa real proximidade em nossos encontros. Nós partilhamos as mesmas referências, os mesmos conceitos, utilizamos os mesmos matemas, e este livro, com certeza, reforçará, apesar de nossas línguas diferentes, nossa linguagem comum. Sua referência, nascida na clínica de seu autor, a ser retomada em nossa clínica cotidiana, favorece a escuta da fala singular de nossos pacientes: histéricos, obsessivos, paranóicos, toxicômanos de todo tipo, violentos. Mas, na verdade, não estaríamos aí, eventualmente, cada um de nós? Lacan já nos ensinava o que "instila" incansavelmente Charles Melman: "Nous sommes dans le tableau" - nós estamos no quadro. Ele não diz, por exemplo, "O que os torna violentos?", mas sim "O que me torna violento?". Ou ainda: "A questão que podemos colocar como psicanalista não é tanto de que maneira alguém vai vir ocupar este lugar (de chefe), mas muito mais o que vem preparar este lugar e fazer com que possamos ser eventualmente sensíveis a esse apelo". Estes textos são ricos em frases fortes como essas e que nos tocam de perto quanto ao nosso lugar de analista. Deixamos a cada um a felicidade de descobri-las ao sabor de sua leitura. Celebrar os dez anos do Tempo Freudiano também com a publicação de um livro fala da importância que noss disciplina dá à leitura. Aprender a ler - é o que colocamos como alicerce da formação dos psicanalistas. E sobretudo quando se trata da ética da psicanálise. O argumento do seminário e o texto inédito "A essência do psicanalista", escrito por Melman especialmente para este livro, falam sobre isso. Como também a própria escolha dos textos desta coletânea, que vêm propor uma articulação imprescindível, na clínica, entre a ética e o ato. O lançamento deste livro faz parte, portanto, do percurso de trabalho do Tempo Freudiano. Não se pode separar o ensino da psicanálise - o saber do psicanalista - daquilo que aí deve incidir de sua transmissão, ou seja, a ética do seu desejo, que deve estar também no cerne do laço social que reúne os analistas em instituição. Graças a esse cuidado permanente, que devemos a uma certa direção dada desde nossa fundação, podemos responder, em transferência de trabalho, à exortação de Melman de que devemos nos servir do ensino de Lacan para tentar construir, "entre outras, e nem que seja diante do trabalho, uma relação que não seja tão neurótica, nem alienada, mas que possa ser uma relação de alegria". Digamos ainda que, se o Brasil e a França se tornaram tão próximos, não é somente pela transferência de trabalho, mas também porque a clínica de um lado e de outro do oceano é, no fundo e em grande parte, a mesma. Foi o que constatamos particularmente por ocasião das questões clínicas que trabalhamos em nossos últimos colóquios entre a Association lacanienne internationale e o Tempo Freudiano. Denise Sainte Fare Garnot - Ângela Jesuíno Ferrettto - Ana Cristina Manfroni Paris/Rio, abril de 2008 www.tempofreudiano.com.br

